Ricardo III

William Shakespeare

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Ridendo Castigat Mores

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Autor: William Shakespeare
Traduo: Carlos A. Nunes
Edio eletrnica: Ed. Ridendo Castigat Mores
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"Todas as obras so de acesso gratuito. Estudei sempre por conta do Estado, ou melhor, da Sociedade que paga impostos; tenho a obrigao de retribuir ao menos uma
gota do que ela me proporcionou."
Nlson Jahr Garcia (1947-2002)


RICARDO III

William
Shakespeare


NDICE
      
ATO I
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV

ATO II
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV

ATO III
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V
Cena VI
Cena VII

ATO IV
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V

ATO V
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V

      
PERSONAGENS
RICARDO, Duque de Gloucester, (mais tarde Rei Ricardo III).
DUQUE DE CLARENCE, seu irmo, (mais tarde o seu fantasma).
SENHOR ROBERTO DE BRAKENBURY, Tenente da Torre.
SENHOR DE HASTINGS, o Camareiro-Mor, (mais tarde o seu fantasma).
DONA ANA, viva de Eduardo, Prncipe de Gales, (mais tarde o seu fantasma).
TRESSEL, fidalgo do squito de Dona Ana.
BERKELEY, fidalgo do squito de Dona Ana.
Um alabardeiro
Um fidalgo
RAINHA ISABEL, mulher do Rei Eduardo IV
MARGARIDA, viva do Rei Henry VI
SENHOR DE RIVERS, seu irmo
O SENHOR DE GREY, seu filho, (mais tarde o seu fantasma)
MARQUS DE DORSET, seu filho, (mais tarde o seu fantasma)
DUQUE DE BUCKINGHAM (mais tarde o seu fantasma).
STANLEY, CONDE DE DERBY
SENHOR GUILHERME CATESBY
Dois assassinos
Guarda da Torre
REI EDUARDO IV
SENHOR RICARDO DE RATCLIFFE
A DUQUESA DE YORK, me de Ricardo, Eduardo IV e Clarence
Menino, filho de Clarence
Menina, filha de Clarence
Trs cidados
ARCEBISPO DE YORK
DUQUE DE YORK, filho mais novo do Rei Eduardo IV, (mais tarde o seu fantasma).
SENHOR CARDEAL BOURCHIER, Arcebispo de Ganturia
Alcaide de Londres
Um mensageiro
HASTINGS, 
Um padre
SENHOR TOMS DE VAUGHAN
BISPO DE ELY, Joo Morton
DUQUE DE NORFOLK
SENHOR DE LOVELL
Um escrivo
Dois bispos (Shaa e Penkier)
Um pajem
SENHOR JAIME TYRREL
Quatro mensageiros
CRISTVO DE URSWICK, um padre
Xerife de Wiltshire
CONDE DE RICHMOND, depois Rei Henrique VII
CONDE DE OXFORD
SENHOR JAIME BLUNT
SENHOR WALTER HERBERT
CONDE DE SURREY
SENHOR GUILHERME DE BRANDON
Fantasma de EDUARDO, Prncipe de Gales, filho de Henrique VI
Fantasma do REI HENRIQUE VI
Um mensageiro
Guardas, alabardeiros, fidalgos, um passavante, senhores, criados, soldados.

      
ATO I
Cena I
      
(Entra Ricardo, Duque de Gloucester)
      
     RICARDO (Duque de Gloucester) - O inverno do nosso descontentamento foi convertido agora em glorioso vero por este sol de York, e todas as nuvens que ameaavam 
a nossa casa esto enterradas no mais interno fundo do oceano. Agora as nossas frontes esto coroadas de palmas gloriosas. As nossas armas rompidas suspensas como 
trofus, os nossos feros alarmes mudaram-se em encontros aprazveis, as nossas hrridas marchas em compassos deleitosos, a guerra de rosto sombrio amaciou a sua 
fronte enrugada. E agora, em vez de montar cavalos armados para amedrontar as almas dos temveis adversrios, pula como um potro nos aposentos de uma dama ao som 
lascivo e ameno do alade. Mas eu, que no fui moldado para jogas nem brincos amorosos, nem feito para cortejar um espelho enamorado. Eu, que rudemente sou marcado, 
e que no tenho a majestade do amor para me pavonear diante de uma musa furtiva e viciosa, eu, que privado sou da harmoniosa proporo, erro de formao, obra da 
natureza enganadora, disforme, inacabado, lanado antes de tempo para este mundo que respira, quando muito meio feito e de tal modo imperfeito e to fora de estao 
que os ces me ladram quando passo, coxeando, perto deles. Pois eu, neste ocioso e mole tempo de paz, no tenho outro deleite para passar o tempo afora a espiar 
a minha sombra ao sol e cantar a minha prpria deformidade. E assim, j que no posso ser amante que goze estes dias de prticas suaves, estou decidido a ser ruim 
vilo e odiar os prazeres vazios destes dias. Armei conjuras, tramas perigosas, por entre sonhos, acusaes e brias profecias, para lanar o meu irmo Clarence 
e o Rei um contra o outro, num dio mortfero, e se o Rei Eduardo for to verdadeiro e justo quanto eu sou sutil, falso e traioeiro, ser Clarence hoje mesmo encarcerado 
devido a uma profecia que diz ser um "g" o assassino dos herdeiros de Eduardo. Mergulhai, pensamentos, fundo, fundo na minha alma. Ali vem Clarence. (Entram Clarence 
e Brakenbury com alguns guardas.) Irmo, bom dia. Que significam estes guardas armados ao servio de Vossa Graa?
     CLARENCE - Sua Majestade, interessada na segurana da minha pessoa, enviou esta escolta para me conduzir  Torre.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - E qual a causa?
     CLARENCE - Porque o meu nome  George.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Oh! Senhor meu, no, no  vossa a culpa. Deveria ele, por tal razo, prender vossos padrinhos. Oh, talvez Sua Majestade tenha 
intento de outra vez vos batizar na Torre. Mas que se passa, Clarence? Posso saber?
     CLARENCE - Podes, Ricardo, quando eu prprio o souber, porque juro que no sei ainda, mas, pelo que ouvi, ele cr em profecias e em sonhos, e do alfabeto escolhe 
a letra "g", e diz que um mago feiticeiro lhe revelou que  por um "g" que um dia ser deserdada a sua prole e porque o meu nome comea por g ele conclui que 
serei eu. Estas, quanto eu sei, e outras ninharias semelhantes levaram Sua Alteza a mandar-me prender.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Pois assim  quando os homens so dominados por mulheres. No  o Rei quem vos manda para a Torre, mas a senhora de Grey, sua 
esposa, Clarence,  ela quem o leva a tais extremos. No foi ela e aquele homem que tem fama to subida, Antnio de Woodville, esse seu irmo, que o fizeram mandar 
Hastings para a Torre, donde hoje mesmo sair? No estamos a salvo, Clarence, no estamos a salvo!
     CLARENCE - Oh, cus, no creio que algum esteja a salvo afora os parentes da Rainha e os mensageiros da noite que percorrem a distncia entre o Rei e essa 
senhora Shore. No ouviste dizer quantas humilhaes sofreu o senhor de Hastings para conseguir a liberdade?
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Humildes splicas a essa deidade concederam a Sua Excelncia o Camareiro-Mor a liberdade. Uma coisa te direi: cuido que nosso 
caminho ser, se nos quisemos manter nas boas graas de El-Rei, fazermo-nos servos dela e usar sua libr. Desde que nosso irmo as transformou em nobres damas, a 
viva gasta e invejosa, e ela prpria, so comadres poderosas neste reino nosso.
     BRAKENBURY - Perdoem-me Vossas Graas: sua Majestade com rigor recomendou que ningum, fosse quem fosse, pudesse em privado conversar com vosso irmo.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Ah; sim? Se aprouver a Vossa Merc, Brakenbury, podeis tomar parte em tudo o que dissemos. No falamos de traio, homem, dizemos 
que o Rei  astuto e virtuoso, e a nobre Rainha bem conservada, formosa, e sem cime. Dizemos que a mulher de Shore tem p de jaspe, boca de rubi, belos olhos, lngua 
amvel e fugaz; e que os parentes da Rainha agora so fidalgos. Que tendes a dizer, senhor? Ousais negar estas sentenas?
     BRAKENBURY - Nada disso, senhor, me diz respeito.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Nada, nem a senhora Shore? Digo-te, companheiro, que, a no ser um s, quem com ela tiver trato melhor far que o faa secretamente, 
a ss.
     BRAKENBURY - Quem  esse "um s", senhor?
     RICARDO (Duque de Gloucester) - O marido dela, velhaco! Querias trair-me.
     BRAKENBURY - Imploro o perdo de Vossa Graa e ao mesmo tempo que cesse de falar com o nobre Duque.
     CLARENCE - Sabemos o teu dever, Brakenbury, e obedeceremos.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Somos os mseros servos da Rainha, somos forados a obedecer. Irmo, adeus. Vou ao encontro de El-Rei, seja o que for que me 
mandeis fazer, mesmo chamar "irm"  viva do Rei Eduardo eu o farei para vos libertar. Entretanto, este rude golpe nos fraternos laos fere-me mais profundamente 
do que podeis cuidar. (Abraa Clarence, chorando)
     CLARENCE - Eu bem sei que isso no apraz a nenhum dos dois.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Bom, vossa priso no ser longa. Libertar-vos-ei, ou eu me enredarei por vs. Em tanto, sofrei com pacincia.
     CLARENCE - Assim por fora terei de fazer. Adeus.
     (Sai Clarence Brakenbury e guardas)
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Vai, percorre esse caminho que no ters regresso. Simples, incauto Clarence, hei por ti tamanho amor que em breve enviarei 
para o cu a tua alma, se o cu aceitar o dom feito assim por nossas mos. Mas quem vem a? Hastings neste instante libertado?
     (Entra o senhor de Hastings)
     HASTINGS - O meu bom dia a meu ilustre senhor.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - O mesmo desejo a meu bom senhor, o Camareiro-Mor; mui bem-vindo sois a este ar puro e livre. Como suportou Vossa Senhoria a 
priso?
     HASTINGS - Com pacincia, nobre senhor, como  dever dos cativos, mas viverei, senhor, para dar graas aos que foram causa da minha priso.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Que assim seja! E o mesmo ser com Clarence, porque os que eram inimigos vossos, dele o so tambm, e contra ele ganharam, como 
contra vs.
     HASTINGS - Pena  haver guias prisioneiras quando milhafres e abutres rapinam em liberdade.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Que novas haveis de fora? No h, de fora, nova to m como esta c de dentro: o Rei est enfermo, fraco e melanclico, e os 
fsicos temem por ele.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Por So Joo essa nova  deveras m. Oh, ele teve por usana largo tempo nocivas regras e gastou em demasia sua real pessoa. 
 doloroso pensar em tal. Onde est ele, em seu leito?
     HASTINGS - Em seu leito.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - I-vos adiante, eu vos seguirei. (Sai Hastings) Ele no viver, assim espero, e no pode morrer antes de George ser mandado de 
carruagem para os cus. Vou procurar El-Rei para mais excitar seu dio contra Clarence com mentiras temperadas de argumentos ponderosos; e se no errar este meu 
profundo intento, Clarence no ter nem mais um dia para viver. Feito isto, tenha Deus em sua misericrdia El-Rei Eduardo, e deixe a mim o mundo para eu me mover 
nele. Ento desposarei a filha mais nova de Warwick. Que importa se lhe matei o marido e lhe matei o pai? A melhor forma de dar remdio ao mal que fiz  moa  tornar-me 
seu marido e seu pai tambm.  isto que eu quero, no tanto por amor mas por outro intento mui secreto que alcanarei casando-me com ela. Porm, cada coisa a seu 
tempo. Clarence ainda respira, Eduardo ainda vive e reina; quando eles j no forem, ento farei contas aos meus ganhos. (Sai)

      
Cena II
      
(Entra o corpo de Henrique VI com uma guarda de alabardeiros, e Dona Ana conduz o prstito acompanhada por Tressel, Berkeley e outros nobres.)
      
     ANA - Pousai, pousai vosso digno fardo se  que a dignidade pode ser amortalhada em atade, enquanto eu, em funrea cerimnia, lamento a queda prematura do 
virtuoso Lancastre. Pobre figura rgida e fria de um piedoso rei, plidas cinzas da casa de Lancastre, tu,  resto exangue daquele sangue real, que me seja permitido 
invocar o teu esprito para ouvir as lamentaes da desafortunada Ana, esposa do teu Eduardo, teu filho assassinado, ferido por essa mesma mo que ora produziu estas 
feridas. Coitada de mim, nas frestas que deixam escoar a tua vida eu verto o blsamo sem esperana destes meus coitados olhos. Oh, maldita seja a mo que causou 
estas feridas, maldito o corao que teve fora de o fazer, maldito o sangue que derramou este sangue. Sobre o hediondo miservel que miserveis nos tornou com a 
tua morte, mais horrores se abatam do que aqueles que posso desejar a serpentes, aranhas, sapos, a qualquer rptil venenoso que vivente seja. Se ele alguma vez tiver 
um filho, que seja aborto, temporo, monstruoso, de aspecto to horrendo e desigual que temor ter, em o vendo, a esperanosa me, e que seja o herdeiro da sua m 
fortuna. Se ele algum dia tiver mulher, que ela por sua morte se sinta mais msera e mesquinha do que eu me sinto agora pela do meu jovem senhor e pela tua. Vinde 
agora para Chertsey com vosso sagrado fardo trazido de Saint Paul para ali ser sepultado. E quantas vezes o peso vos cansar, descansai, enquanto eu choro o corpo 
do Rei Henrique.
     (Entra Ricardo)
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Ficai, vs que transportais o corpo. Pousai-o aqui.
     ANA - Que negro mago esconjura este inimigo para que faa impedimento a atos piedosos e devotos?
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Ruins viles! Pousai o corpo, ou, por So Paulo, de quem desobedece farei eu um corpo morto!
     GUARDA - Afastai-vos, senhor, e deixai passar o atade.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Co danado! Para quando te ordeno! Ergue a tua alabarda mais alto que o meu peito ou, por So Paulo, estendo-te a meus ps, 
e te esmago, miservel, pela tua ousadia.
     ANA - O qu? Tremeis? Haveis medo? Pobre de mim, no vos posso censurar, que sois mortais, e os olhos dos mortais no podem sofrer o maligno. Vai-te de ante 
mim, temeroso ministro dos infernos! To s sobre seu corpo mortal tinhas poder; a alma, essa, no a podes ter; por isso, vai-te.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Doce santa, por caridade, no blasfemeis assim.
     ANA - Demnio imundo, vai-te por amor de Deus, e no nos atormentes; que da terra feliz fizeste o teu inferno, encheste-a com gritos de maldio e com profundos 
clamores. Se te deleitas em contemplar teus feitos odiosos, pe os olhos neste exemplo de tua carnificina. Oh, senhores! Olhai, olhai as feridas do Rei Henrique 
sem vida abrindo bocas congeladas e de novo sangrando. Vergonha para ti, vergonha,  tu, massa informe de srdida disformidade, pois que  tua presena que aqui 
faz verter o sangue das veias geladas e vazias onde o sangue j no tem morada! O teu feito inumano e contrrio  natureza provoca este dilvio contrrio a toda 
a natureza. Oh, Deus! Tu que criaste este sangue, vinga a sua morte. Oh, terra! Tu que bebes este sangue, vinga a sua morte. Ou que os relmpagos dos cus se abatam 
sobre o assassino, ou que a terra se abra e de sbito o devore, tal como tu,  terra, sorves todo o sangue deste bondoso Rei que seu brao comandado pelo inferno 
to cruelmente matou.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Senhora minha, no conheceis as leis da caridade que mandam retribuir com o bem o mal, com bnos as maldies.
     ANA - Prfido, tu no conheces nem a lei de Deus nem a lei dos homens. No h besta alguma, por mais feroz, que no conhea a piedade.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Mas eu no a conheo, de sorte que no sou besta alguma.
     ANA - Oh, maravilha, quando os demnios dizem a verdade!
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Mor maravilha quando os anjos se enfurecem desta sorte. Permiti,  mulheril, divina perfeio, que me seja possvel desses supostos 
crimes defender-me passo a passo.
     ANA - Permite,  varonil pestilenta infeco, que apenas me seja possvel destes males conhecidos acusar tua maldita pessoa passo a passo.
     RICARDO (Duque de Gloucester) -  mais formosa do que a lngua pode dizer, d-me um tempo paciente para me poder escusar.
     ANA -  mais torpe do que o corao consegue imaginar, no podes manifestar outra escusa a no ser o teu prprio enforcamento.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Esse desespero seria a minha acusao.
     ANA - E por esse desespero sers tu escusado por, finalmente digno, teres vingado em ti a carnificina indigna que cometeste noutros.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - E se eu no os tivesse assassinado?
     ANA - Ento  porque no foram abatidos mas esto mortos, e por ti,  escravo do diabo.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - No matei o teu marido.
     ANA - Ento  que ele est vivo.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - No, est morto, e foi abatido pela mo de Eduardo.
     ANA - Maior mentira nunca o mundo ouviu. A Rainha Margarida viu a tua lmina assassina fumegante do seu sangue, a mesma que apontaste contra o peito seu mas 
cuja ponta os teus irmos desviaram.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Fui provocado pela lngua injuriosa da Rainha que lanava a culpa que eles tinham sobre os meus ombros sem culpa.
     ANA - Foste provocado pelo teu esprito perverso que nunca sonha com mais nada seno carnificinas. No mataste este Rei?
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Concedo-vos que sim.
     ANA - Concedes-me, porco-espinho! Pois me conceda Deus tambm uma maldio sobre ti por esse feito perverso. Oh, como ele era amvel, doce e virtuoso.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Melhor para o Rei dos cus que o tem agora.
     ANA - Est no cu, onde tu nunca entrars.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Deixai que ele me agradea para l t-lo enviado, pois era o seu lugar, mais esse que na terra.
     ANA - E o teu lugar no  seno o inferno.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Sim, outro lugar ainda, se quiserdes que o nomeie.
     ANA - Uma masmorra?
     RICARDO (Duque de Gloucester) - A vossa alcova.
     ANA - Que se abata a inquietude sobre a alcova onde te deitas.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Assim acontece, senhora, at que me deite convosco.
     ANA - Assim o espero!
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Eu sei que assim . Mas, gentil Dona Ana, deixemos esta arguta querela de nossos engenhos e retomemos mais vagaroso mtodo: 
no ser o causador das mortes prematuras destes Plantagenetas, Henrique e Eduardo, to culpado como o seu executor?
     ANA - Tu foste a causa e o seu mais vil efeito.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - A vossa formosura foi causa de tal efeito,a vossa formosura que me perseguia em sonhos a fim de me dar cargo da morte do mundo 
inteiro para que pudesse uma hora s viver sobre o vosso suave peito.
     ANA - Se eu tal cuidasse, digo-te, homicida, estas unhas arrancariam a formosura de meu rosto.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Estes olhos meus no sofreriam os destroos dessa formosura, no vos desfigurareis, se eu estivesse ao p de vs. Tal como 
o mundo todo se alegra com o sol, assim me alegro eu com vossa formosura, ela  o meu dia, ela  a minha vida.
     ANA - Que a noite negra escurea teu dia, e a morte tua vida.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - No te amaldioes, formosa criatura, tu s ambas as coisas.
     ANA - Prouvera que fosse, para me vingar de ti.
     RICARDO (Duque de Gloucester) -  uma disputa horrenda, vingares-te em quem te ama.
     ANA -  uma disputa justa e conforme  razo vingar-me de quem matou meu marido.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Quem te privou, senhora, de teu marido, f-lo para te ajudar a encontrar marido melhor.
     ANA - No respira sobre a terra homem melhor do que ele.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Est vivo quem te ama mais do que ele pde.
     ANA - Diz que nome tem.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Plantageneta.
     ANA - Isso era ele.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - O nome, o mesmo, mas algum de mais nobre natureza.
     ANA - Onde est ele?
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Aqui. (Ela cospe para cima dele) Porque me cospes?
     ANA - Oxal, para teu bem, fosse veneno mortal.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Nunca de fonte to doce brotou veneno.
     ANA - Nunca escorreu veneno de sapo mais imundo. Fora da minha vista! Envenenas os meus olhos.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Teus olhos, gentil senhora, envenenaram os meus.
     ANA - Oxal fossem basiliscos para te matarem.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Oxal fossem, para eu neste instante morrer, porque eles me matam agora de uma morte viva. Esses teus olhos arrancaram dos meus 
lgrimas amargas, envergonharam-lhes o aspecto com uma chuva de gotas infantis; estes olhos, que nunca derramaram uma s lgrima de remorso. Nem quando meu pai York 
e Eduardo choraram ao ouvir o queixume plangente que Rutland soltou quando o negro Clifford o trespassou com a espada, nem quando o teu belicoso pai, como criana, 
contou a triste histria da morte de meu pai, e vinte vezes parou soluando e chorando, de tal guisa que toda a companhia tinha as faces molhadas como rvores desfeitas 
pela chuva. Naquela hora triste meus olhos viris desprezaram at uma humilde lgrima. E o que estas penas no lograram causar, logrou tua formosura, e com o prprio 
choro os cegou. Nunca supliquei a amigo, a inimigo, minha lngua nunca experimentou suave e lisonjeira fala, mas eis que tua formosura  o reino que eu desejo, o 
meu orgulhoso corao suplica, e fora a minha lngua a falar. (Ela olha para ele com escrnio) No ensines a teus lbios escrnio tal, porque foram feitos, senhora, 
para beijar, e no para tal desdm. Se teu corao, prenhe de vingana, no pode perdoar, aqui est, entrego-te esta espada de ponta afiada, para que a enterres, 
se te apraz, neste peito leal, e deixa partir a alma que te adora, exponho-o nu ao golpe mortal e de joelhos, humilde, te imploro a morte. (Ajoelha-se descobre o 
peito, oferece-o ao mesmo tempo que a espada) No, no hesites, porque eu matei o Rei Henrique, mas foi a tua formosura que a tal me conduziu. V, depressa, fui 
eu que apunhalei o jovem Eduardo, mas foi o teu rosto celestial que a isso me forou. (Ela deixa cair a espada) Levanta a espada, ou levanta-me a mim.
     ANA - Ergue-te, homem enganador. Embora eu deseje a tua morte. (Ele levanta-se) No serei eu o teu carrasco.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Ordena ento que eu me mate, e f-lo-ei.
     ANA - J ordenei.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Isso foi em tua clera. Repete agora, profere a palavra. Esta mo, que por teu amor matou o teu amor, matar, por teu amor, 
um amor bem mais leal. Cmplice te tornars em ambas essas mortes.
     ANA - Quisera conhecer teu corao.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Est espelhado na minha lngua.
     ANA - Temo que ambos sejam falsos.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Ento nunca existiu um homem verdadeiro.
     ANA - Pois bem, embainhai ento vossa espada.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - E tu diz que haverei paz.
     ANA - Sab-lo-s mais tarde.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Mas poderei viver com uma esperana?
     ANA - Todos os homens, espero, vivem assim.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Promete usar este anel.
     ANA - Receber no  dar.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - V como o meu anel se ajusta ao teu dedo, tal como o teu peito encerra meu triste corao. Usa-los ambos, porque ambos so teus,e 
se for lcito a este teu pobre e dedicado servo implorar um favor  tua graciosa mo, para todo o sempre assim confirmarias a sua felicidade.
     ANA - Qual favor?
     RICARDO (Duque de Gloucester) - O favor de deixares estes tristes deveres a quem tem mais razo para lamentar a morte e de partir j para Crosby Place, onde 
eu, depois de solenemente enterrar no Mosteiro de Chertsey este nobre rei, e de molhar seu tmulo com arrependidas lgrimas, vos procurarei para vos servir. Por 
vrias e ignotas razes vos suplico que me concedais este favor.
     ANA - De todo o corao. Muito me alegra tambm ver-vos to arrependido. Tressel e Berkeley, vinde comigo.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Dizei-me adeus.
     ANA -  mais do que mereceis, mas porque me ensinais a dar-vos louvores, imaginai ento que j vos disse adeus.
     (Saem Tressel e Berkeley com Ana)
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Senhores, levai o cadver.
     GUARDA - Para Chertsey, nobre senhor?
     RICARDO (Duque de Gloucester) - No, para Whitefriars. Esperai a por mim. (Saem os fidalgos e alabardeiros com o cadver) Ter havido mulher de tal sorte cortejada? 
Ter havido mulher de tal sorte conquistada? Ser minha, mas no por largo tempo. Qu, eu que lhe matei o marido e a este o pai, conquist-la quando ela tinha o 
corao cheio do dio mais extremo, com maldies nos lbios e lgrimas nos olhos. Junto da sangrenta testemunha do seu dio, tendo contra mim Deus, a sua conscincia 
e estas teias. E sem amigos que ajuda me dessem nessa obra, s o demnio e estes olhares enganadores, e mesmo assim conquist-la, tanta coisa para nada! Ha! J ter 
ela esquecido o formoso Prncipe Eduardo, seu senhor, que eu, h cerca de trs meses, agastado apunhalei em Tewkesbury? Fidalgo mais galante e mais gentil, fruto 
duma natureza generosa, jovem, animoso, sbio, e sem dvida qualquer de rgia estirpe, no pode o vasto mundo de novo engendrar. Porm, ela aceita baixar a vista 
sobre mim, que colhi a dourada primavera deste doce Prncipe e que a tornei viva em doloroso leito? Sobre mim, que inteiro no igualo metade de Eduardo? Sobre mim, 
que coxeio e sou assim disforme? O meu ducado contra um msero vintm, tenho, todo este tempo, medido mal minha pessoa! Por minha vida ela pensa - embora eu no 
- que sou um homem honesto e maravilhoso. Comprarei um espelho, e aprazarei mais de vinte, mais de trinta alfaiates para estudarem as vestes que adornaro meu corpo. 
J que me deleito com as minhas prprias graas, farei dispndios para que a coisa assim perdure. Mas primeiro deitarei aquele para a cova, e ento, com lamentos, 
tornarei ao meu amor. Brilha Sol, luminoso, at eu comprar um espelho para que minha sombra possa eu ver enquanto passo. (Sai)

      
Cena III
      
(Entra a Rainha Isabel, o senhor de Rivers, o senhor de Grey e o Marqus de Dorset)
      
     RIVERS - Tende pacincia, senhora, Sua Majestade retomar em breve a sua costumada sade.
     GREY - Quanto maior nsia manifestardes pior lhe fareis, por isso, pelo amor de Deus, alimentai boa esperana e dai nimo a Sua Graa com um olhar ledo e vivo.
     ISABEL - Se ele morresse, que seria de mim?
     GREY - Nenhum outro mal afora perder um tal senhor.
     ISABEL - Perder um tal senhor inclui todos os males.
     GREY - Os cus abenoaram-vos com um formoso filho e nele conforto encontrareis, quando o rei j no viver.
     ISABEL - Oh!, ele  jovem, e como infante est entregue  guarda de Ricardo de Gloucester, homem que no me quer bem, nem a qualquer de vs.
     RIVERS - J est concludo ser ele o Protector?
     ISABEL - Est decidido, concludo ainda no, mas assim ter de ser, se o Rei sucumbir.
     (Entram Buckingham e Stanley, Conde de Derby)
     GREY - Ali vm os senhores de Buckingham e de Derby.
     BUCKINGHAM -  Vossa Real Graa, o meu bom dia.
     STANLEY - Deus faa feliz Vossa Majestade, como sempre tendes sido.
     ISABEL - A Condessa de Richmond, meu bom senhor de Derby,  vossa boa prece a custo dir amem. Contudo, Derby, apesar de ser ela vossa esposa, e de no me querer 
bem, ficai seguro, senhor, de que vos no odeio por sua fera arrogncia.
     STANLEY - Eu vos imploro, no tomeis por verdadeiras as calnias invejosas dos seus falsos acusadores, ou se for ela acusada com verdade perdoai sua fraqueza, 
que eu cuido tem origem em doentio humor, e no em profunda maldade.
     RIVERS - Vistes hoje El-Rei, meu senhor de Derby?
     STANLEY - Agora mesmo o Duque de Buckingham e eu estivemos em presena de Sua Majestade.
     ISABEL - H esperana de melhoras, senhores?
     BUCKINGHAM - Senhora, esperana h; Sua Graa fala alegremente.
     ISABEL - Deus lhe d sade. Haveis praticado com ele?
     BUCKINGHAM - Senhora, sim. Ele deseja pr em paz o Duque de Gloucester e vossos irmos, e eles e o senhor Camareiro-Mor, e mandou fossem chamados a sua real 
presena.
     ISABEL - Oxal tudo tenha bom fim, mas isso nunca ser. Temo que nossa felicidade tenha chegado a seu cume.
     (Entram Ricardo e Hastings)
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Eles procedem mal comigo, e eu tal no sofrerei. Quem se lamenta a El-Rei de eu ser, por Deus, fero e de no lhes querer bem? 
Por So Paulo, amam pouco Sua Graa aqueles que lhe enchem os ouvidos destes insanos rumores. Porque no sei dar lisonja nem ter aspecto afvel, sorrir perante os 
homens, afagar, enganar e fingir, curvar-me como os franceses e arremedar cortesias, tenho de ser considerado um rancoroso inimigo? No poder ser que um homem simples 
viva e no pense mal, sem que a sua simples verdade no seja injuriada por uns quaisquer Joanes insinuantes e astutos?
     GREY - A qual de ns aqui presentes se dirige Vossa Graa?
     RICARDO (Duque de Gloucester) - A ti, que no tens honestidade nem tens graa. Quando foi que procedi mal para contigo? Quando foi que te fiz mal? Ou a ti? 
Ou a ti? Ou a algum da vossa faco? Que a peste se abata sobre todos vs! A Sua Real Graa - e oxal Deus o preserve mais do que o podeis vs desejar - no pode 
respirar em sossego um s momento sem que vs o perturbeis com vossas queixas depravadas.
     ISABEL - Irmo Gloucester, no haveis entendido a questo: El-Rei, por sua prpria e rgia vontade, e no levado por pedido algum, havendo talvez em mente o 
vosso dio profundo que se manifesta em vossos atos visveis contra meus filhos, irmos, e contra mim prpria, manda chamar-vos, para saber a razo da vossa malquerena, 
e desse modo remov-la.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - No sei dizer. O mundo tornou-se to perverso que as carrias fazem presas onde as guias no ousam pousar. Desde que qualquer 
Joane se muda em fidalgo, h muita gente fidalga que se transforma em Joane.
     ISABEL - Ento, ento, sabemos o que quereis dizer, irmo Gloucester. Tendes inveja  minha ascenso e  dos meus amigos. Deus permita que nunca tenhamos necessidade 
de vs.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Entretanto, Deus permita que tenhamos ns necessidade de vs. Est preso o nosso irmo por culpa vossa, eu prprio desgraado, 
e a nobreza  desprezada, enquanto dia a dia se concede nobre condio aos que ainda h menos de dois dias mal valiam um centil.
     ISABEL - Por Deus que me elevou da felicidade tranqila que eu gozava a essas alturas inseguras, nunca incitei Sua Majestade contra o Duque de Clarence, mas 
tenho sido, sim, advogado srio a interferir por ele. Senhor meu, lanais sobre mim infame injria envolvendo-me com falsidade nestas suspeitas vis.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Podeis negar que no haveis sido a causa da recente priso do senhor de Hastings?
     RIVERS - Senhor, ela pode, porque...
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Ela pode, senhor de Rivers. Pois quem o no sabe? Ela pode fazer mais, senhor, do que negar esse feito. Ela pode ajudar-vos 
 obteno de muitos belos cargos e depois negar que foi a protetora mo em tudo isso, e atribuir honrarias a vosso subido mrito. O que  que ela no pode? Ela 
pode, sim, ela pode casar...
     RIVERS - O qu, pode casar?
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Pode casar com quem? Casar com um rei solteiro e mancebo formoso. Cuido que vossa av fez pior casamento.
     ISABEL - Meu senhor de Gloucester, sofri tempo de mais as vossas speras censuras e zombarias amargas. Pelos cus, irei contar a Sua Majestade os insultos ignaros 
que amide suportei.
     (Entra a velha Rainha Margarida)
     ISABEL - Quisera eu ser moa do campo antes que grande rainha, assim maltratada, escarnecida e ultrajada. Pequeno contentamento tenho eu em ser Rainha de Inglaterra.
     MARGARIDA - ( parte) E que esse pequeno contentamento se torne mais pequeno ainda, eu vos imploro, meu Deus. Pertencem-me a tua honra, o teu estado e o teu 
lugar.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Qu, ameaais contar a El-Rei? Contai, contai sem temperana. Lembrai-vos bem do que vos disse. Serei capaz de o afirmar em 
presena de El-Rei. Ouso aventurar-me a ser mandado para a Torre.  tempo de falar, j esqueceram os meus servios.
     MARGARIDA - ( parte) Fuge, demnio! Por demais me lembro eu deles: mataste na Torre meu marido Henrique, e Eduardo, meu filho, em Tewkesbury.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Antes de serdes Rainha, sim, ou o vosso esposo Rei, j eu era a besta de carga em seus importantes tratos, quem mondava seus 
orgulhosos adversrios, quem premiava com liberalidade os seus amigos. Para coroar o sangue dele, cansei meu prprio sangue.
     MARGARIDA ( parte) - Assim foi, e sangue bem melhor do que o dele e do que o teu.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Durante esse longo tempo, vs e o vosso esposo Grey reis partidrios da Casa de Lancastre. E Rivers, vs o haveis sido tambm. 
No foi morto o vosso esposo na batalha de Margarida, em Santo Albano? Deixai-me que vos lembre, se no haveis memria disso, o que reis antes disto, e o que sois 
e tambm o que eu era e o que ora sou.
     MARGARIDA ( parte) - Um srdido assassino, e ainda o s.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - O pobre Clarence abandonou seu pai Warwick, sim, e perjurou - que Jesus lhe perdoe!
     MARGARIDA ( parte) - Que Deus o vingue!
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Para lutar ao lado de Eduardo pela coroa, e como recompensa, pobre senhor, est encarcerado. Prouvera a Deus que meu corao 
fosse de pedra, como  o de Eduardo, ou que o de Eduardo fosse brando e misericordioso como  o meu. Sou demasiado tolo e pueril para este mundo.
     MARGARIDA ( parte) - Esconde-te no inferno por vergonha e deixa este mundo.  tu, demnio, o teu reino  ali.
     RIVERS - Meu senhor de Gloucester, nesses dias conturbados, que aqui recordais para dar prova de que fomos inimigos, seguamos ns nosso senhor, o nosso Rei 
soberano. Tambm vs ns seguiramos, se fosseis vs nosso rei.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Se fosse? Antes quisera ser mendigo! Longe viva do meu corao tal pensamento.
     ISABEL - Como  pouca a alegria, senhor meu, que imaginais podeis ter, se fsseis Rei neste pas, assim podeis imaginar ser pouca alegria que eu tenho em ser 
Rainha aqui.
     MARGARIDA ( parte) - Sim, pouca alegria tem a Rainha, porque eu sou ela e tambm sem alegria. No posso calar-me por mais tempo! (Avana) Ouvi-me, vs, piratas 
em contenda, que entre vs lutais ao dividir o que me haveis pilhado: qual de vs no treme ao olhar para mim? Ou porque sou a Rainha, e como sbitos vos curvais, 
ou porque, por vs deposta, como rebeldes tremeis? Ah, nobre vilo! No te apartes daqui.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Bruxa velha e imunda, que fazes diante de mim?
     MARGARIDA - To-s a narrao de todos os teus estragos: isso farei, antes de te deixar partir.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - No foste para o exlio, para no sofreres a morte?
     MARGARIDA - Fui, mas maior sofrimento encontro no exlio do que a morte me pode causar aqui em minha casa. Deves-me um marido e um filho; e tu um reino; vs 
todos lealdade. Esta mgoa que tenho  vossa por direito, e todos os prazeres que me usurpais so meus.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - A maldio que o meu nobre pai lanou sobre ti quando coroaste a sua fronte guerreira de papel, e com teu escrnio fizeste 
brotar rios dos seus olhos, e depois, para os secares, deste ao Duque um trapo embebido no sangue inocente do formoso Rutland, as suas maldies de ento, do mago 
da alma arrancadas contra ti, sobre ti caram todas, e Deus, no fomos ns, castigou o teu feito sangrento.
     ISABEL - Assim Deus  justo quando faz justia ao inocente.
     HASTINGS - Oh! Foi o mais ingente crime matar aquele infante, e a mais impiedosa obra que a memria guarda.
     RIVERS - Os prprios tiranos verteram lgrimas ao ouvirem o relato.
     DORSET - No houve homem algum que no fizesse profecia de vingana.
     BUCKINGHAM - Northumberland, ento presente, chorou em vendo.
     MARGARIDA - Qu? Estveis vs todos rosnando antes da minha chegada prontos a filarem-se uns aos outros pelo pescoo e virais agora todos vs o dio contra 
mim? A medonha maldio de York teve nos cus tal poder que a morte de Henrique, a morte de meu querido Eduardo, a perda do seu reino, o meu doloroso exlio, no 
so mais que o preo da morte dessa criana impertinente? Podem as maldies atravessar as nuvens e chegar at ao cu? Pois ento, deixai passar negras nuvens, minhas 
lestas maldies. Que morra o vosso Rei no na guerra, mas por excessos, tal como o nosso s mos do assassino, para que esse se tornasse Rei. Que morra na sua juventude, 
de igual modo vtima de violncia precoce, Eduardo, teu filho, que agora  Prncipe de Gales. Por Eduardo, meu filho, que era Prncipe de Gales. Que tu prpria Rainha, 
por mim que fui Rainha, sobrevivas  tua glria, tal como eu, infeliz. Que vivas muitos anos para chorar a morte dos teus filhos, e para ver uma outra ornada dos 
teus direitos, como que os teus dias felizes peream muito antes da tua morte. E que, aps largas horas de sofrimento, morras sem j ser me, sem j ser esposa, 
nem Rainha de Inglaterra. Rivers e Dorset, vs estveis presentes, e tu tambm, senhor de Hastings, quando com sangrentos punhais foi ferido o meu filho.  Deus, 
eu vos suplico que nenhum de vs chegue ao termo natural da sua idade, mas que sucumbais a imprevisto acidente.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Acabaste o teu feitio, tu, odiosa velha bruxa?
     MARGARIDA - Sem te incluir a ti? Fica a, co, porque ters de me ouvir. Se os cus tiverem concebido praga mais penosa do que aquela que consigo desejar-te, 
oh, que eles aguardem at estarem maduros teus pecados. E que ento lancem sua ira sobre ti, perturbador da paz deste triste mundo. Que o verme da conscincia te 
roa a alma; que suspeites teus amigos de traio enquanto vivo fores; e que tomes por teus ntimos amigos os maiores traidores; que o sono jamais cerre esses teus 
olhos mortferos a no ser para que tormentosos sonhos te amedrontem com seu inferno de hediondos demnios. Tu, denominado aborto de refocilante porco, tu, que  
nascena foste assinalado escravo da natureza, e filho dos infernos, tu, vergonha do ventre da tua me, tu, odiado produto dos quadris de teu pai, tu, farrapo de 
honra, tu, desprezvel...
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Margarida!
     MARGARIDA - Ricardo!
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Qu?
     MARGARIDA - No te chamei.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Peo-te perdo, cuidei que me tinhas tu chamado todos aqueles nomes amargos.
     MARGARIDA - Assim foi, mas resposta no esperava. Oh, deixa-me acabar esta minha maldio!
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Eu a fiz, e termina em "Margarida".
     ISABEL - Proferistes assim contra vs mesma a maldio.
     MARGARIDA - Pobre rainha de fantasia, v decorao da minha sorte, porque lanas tu acar sobre essa aranha inchada suja teia mortal te envolve toda? Louca, 
louca! Afias a faca para te matar. Vir o dia em que tu desejars que eu te ajude  maldio deste sapo marreco e venenoso. Mulher fementida, acaba a tua maldio 
infrene, evitando assim que, para teu mal, nos esgotes a pacincia.
     MARGARIDA - Infmia sobre vs todos, haveis esgotado a minha.
     RIVERS - Bem vos serviria quem vos ensinasse os vossos deveres.
     MARGARIDA - Para me bem servirdes, tereis de cumprir vs vossos deveres. Ensinai-me a ser vossa Rainha e vs sbditos meus. Oh, servi-me bem, e aprendei bem 
esses deveres.
     DORSET - No despendais razes com ela, ensandeceu.
     MARGARIDA - Paz, senhor Marqus. Sois desavergonhado. Vosso ttulo recente ainda no  moeda usada. Oh, se a vossa tenra nobreza pudesse fazer juzo do que 
 perd-la e assim ser miservel! Aqueles que esto no alto cume so por muitos ventos sacudidos, e, se carem, em pedaos se repartem.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Bom conselho, por minha f! Fazei por segui-lo, Marqus, fazei.
     DORSET - Tanto toca a vs, senhor, como me toca a mim. Oh, e muito mais. Mas eu nasci em alto estado, o nosso ninho  no cimo de um cedro, e brinca com o vento 
e escarnece do sol.
     MARGARIDA - E transforma o sol em sombra, coitada de mim, coitada!  testemunho o meu filho, agora na sombra da morte, cujos raios brilhantes, resplandecentes, 
a tua turva clera envolveu em eterna escurido. O teu ninho foi feito no nosso ninho. Oh, Deus, que tal vedes, no tolereis coisa assim. como foi ganho com sangue, 
assim tambm seja perdido.
     BUCKINGHAM - Calai-vos, calai-vos, por vergonha se no for por caridade.
     MARGARIDA - No me peas caridade nem vergonha. Sem caridade haveis privado comigo e sem vergonha foram por vs cruelmente mortas as minhas esperanas. A minha 
caridade  o ultraje, a vida minha vergonha, e nessa vergonha viva sempre o furor das minhas mgoas.
     BUCKINGHAM - Acabai, acabai!
     MARGARIDA -  nobre Buckingham, beijarei a tua mo em sinal de aliana e amizade para contigo. Que os cus te sejam propcios e  tua nobre Casa, as tuas vestes 
no esto manchadas do meu sangue, nem tu cabes dentro da minha maldio.
     BUCKINGHAM - Nem ningum aqui, porque nunca as maldies passam dos lbios dos homens que as proferem.
     MARGARIDA - No cuide assim, porque elas sobem aos cus, e a despertam a dormente e gentil paz de Deus.  Buckingham, acautelai-te com aquele co! Nota que 
quando ele nos afaga, morde; e quando morde o seu dente venenoso fere mortalmente. No tenhas trato com ele, tem cuidado com ele, pecado, morte e inferno deixaram 
nele seus sinais, e todos os seus servos lhe obedecem.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Que diz ela, meu senhor de Buckingham?
     BUCKINGHAM - Nada que eu acate, meu bom senhor.
     MARGARIDA - Qu, desprezas-me por este meu conselho amigo, e adulas o demnio contra quem eu te previno? Oh, mas recorda este outro dia quando ele quebrar de 
dor o teu prprio corao, e diz que a pobre Margarida era profeta. Vivei, cada um de vs ao dio dele sujeito, e ele ao vosso, e todos vs ao de Deus. (Sai)
     BUCKINGHAM - Arrepiam-se-me as carnes de a ouvir proferir tais maldies.
     RIVERS - E a mim tambm. No entendo a razo de ela estar em liberdade.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - No a condeno. Pela santa me de Deus, ela sofreu duras ofensas, e eu me arrependo da parte que me cabe.
     ISABEL - Nunca a ofendi, ciente que o fazia.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Tendes, no entanto, todo o proveito de suas ofensas. Por paixo fui levado a bem fazer a algum que  demasiado frio para pensar 
nisso agora. Por minha f, quanto a Clarence, ele est bem recompensado: por seus males fechado em pocilga para a engorda. Deus perdoe queles que foram causa de 
tal dano.
     RIVERS - Concluso crist e virtuosa: orar por quem tais danos nos causou.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) -  o que eu sempre fao de si para si bem avisado como sou. Se maldio eu agora tivera proferido, teria a maldio cado sobre 
mim.
     (Entra Catesby)
     CATESBY - Senhora, Sua Majestade chama por vs, E por Vossa Graa, e por vs, gentis senhores.
     ISABEL - Catesby, eu vou. Senhores, vindes comigo?
     RIVERS - Acompanhamos Vossa Graa.
     (Saem todos exceto Ricardo)
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Eu fao o mal, e sou o primeiro a queixar-me. Os secretos agravos que amide vou tecendo fao que outros tomem deles penoso 
cargo. Clarence, a quem eu, decerto, lancei na escurido, eu o lastimo frente a muitos galinceos, nomeadamente Derby, Hastings, Buckingham, e digo-lhes que  a 
Rainha e seus aliados que atiam o Rei contra o Duque meu irmo. Crem eles agora em tal, e me movem a vingar-me em Rivers, em Dorset e em Grey. Entretanto eu suspiro, 
e com uma palavra da Escritura, lhes digo que manda Deus retribuir o mal com o bem. E assim cubro a minha infmia manifesta com estranhos farrapos das Sagradas Escrituras, 
e semelho a um santo, quando fao de diabo o mais que posso. (Entram dois assassinos) Mas devagar, a vm os meus executores. Ora ento, meus animosos companheiros, 
vigorosos e audazes, ides agora rematar a questo?
     PRIMEIRO ASSASSINO - Vamos, senhor, e viemos buscar a licena. Que nos permita entrar no local onde ele est.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Bem pensado. Tenho-a aqui. Quando tiverdes concludo, ide a Crosby Place. Mais, senhores, sede lestos na execuo. E sem remisso, 
no deis ouvidos a suas preces, porque Clarence tem boas falas e talvez possa mover a piedade vossos coraes, se lhe prestardes ateno.
     SEGUNDO ASSASSINO - Qu, senhor! No nos quedaremos a falar. Quem muito fala pouco faz. Ficai certo de que vamos usar as nossas mos, e no a nossa lngua.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Dos vossos olhos caem pedras, quando dos olhos dos tolos brotam lgrimas. Gosto de vs, moos. Ao trabalho, j. Ide, ide, depressa.
     AMBOS - Vamos, meu nobre senhor.
     (Saem)

      
Cena IV
      
(Entra Clarence e guarda)
      
     GUARDA - Porque tem hoje Vossa Graa um aspecto to grave?
     CLARENCE - Oh, passei uma noite tormentosa, cheia de hrridos sonhos, de feras vises, tanto que eu, cristo e crente, no passaria nova noite assim, fora embora 
para comprar um mundo de dias felizes, to prenhe de funesto horror foi esse tempo.
     GUARDA - Que sonho foi esse, senhor? Dizei, vos peo.
     CLARENCE - Cuidei ter fugido da Torre, e estava numa barca para ir at Borgonha; e em minha companhia, Gloucester, meu irmo, que me tentou para que deixasse 
o camarote e fosse ao tombadilho. Dali olhamos a Inglaterra e falamos dos mil difceis tempos das guerras de York e de Lancastre, por que havamos passado. Enquanto 
andvamos por sobre o cho escorregadio do tombadilho, cuidei que Gloucester tropeava, e ao cair me lanou - a mim que, cuidava eu, o amparava - borda fora, para 
o fundo das altssimas ondas do oceano. Oh, Deus! Cuidei saber a dor do afogamento, o terrfico rudo das ondas nos ouvidos, as vises da crua morte nos meus olhos! 
Cuidei que via mil funestos naufrgios, dez mil homens que os peixes devoravam, barras de ouro, ncoras ingentes, cmoros de prolas, pedras preciosas, jias de 
valor inestimvel, tudo espalhado no fundo do mar. Algumas havia dentro de crnios de cadveres, e nos buracos que outrora os olhos habitavam tinham-se alojado, 
como se escarnecessem dos olhos, pedras cintilantes, que faziam cortesia ao fundo enlameado das profundezas, e se riam dos ossos que por ali jaziam.
     GUARDA - Haveis tido tempo  hora da morte de olhar esses segredos das profundezas?
     CLARENCE - Cuido que tive. E muitas vezes me esforcei por exalar o ltimo suspiro, porm a invejosa torrente retinha a minha alma, e no a deixava sair para 
encontrar os ares incertos, vastos e livres, Mas a escondia no meu arquejante peito, que quase rebentava ao vomit-la no mar.
     GUARDA - E no haveis despertado no meio dessa terrfica agonia?
     CLARENCE - No, no. Foi-se o meu sonho prolongando para alm da vida. Oh, a procela comeou ento para a minha alma. Cuidei que passava o rio da melancolia 
com esse fero barqueiro de que falam os poetas, e que entrava no reino da noite sem fim. O primeiro a saudar a minha alma de forasteiro foi meu ilustre sogro, o 
famoso Warwick, que em voz alta chamou: "Que flagelo pelo perjrio pode oferecer este escuro reino ao falso Clarence?" Posto o que desapareceu. Surgiu ento errante 
uma sombra que um anjo semellhava, de luminosos cabelos tingidos de sangue, e alto gritou: "Clarence  chegado, o perjuro, o falso Clarence das duas faces que me 
apunhalou na batalha de Tewkesbury! Agarrai-o, frias! Conduzi-o ao suplcio!" Entretanto, cuidei, uma legio de srdidos demnios me cercaram, e lanaram para o 
fundo de meus ouvidos gritos de tal modo hediondos que o prprio rudo me despertou em sobressalto, e por um tempo no ousava crer que no estava no inferno, tal 
a temerosa aflio causada pelo sonho.
     GUARDA - No  motivado espanto, senhor, o terror que sentistes; de vos ouvir, to s, eu sinto terror.
     CLARENCE - Oh, guarda, guarda, eu cometi esses feitos que agora testemunham contra a minha alma por amor de Eduardo, e v como ele me paga. Oh, Deus, se minhas 
preces profundas no te podem abrandar, mas queres vingar-te dos meus crimes, abate a Tua ira apenas sobre mim. Oh, poupa minha mulher inocente e meus desgraados 
filhos. Guarda, peo-te, senta-te por um momento ao p de mim. Est grave a minha alma, e com vontade dormiria. Ficarei, senhor. Que Deus conceda a Vossa Graa um 
repousado descanso.
     (Entra Brakenbury, o Tenente)
     BRAKENBURY - A dor quebra as estaes e as horas de repouso, faz da noite manh, e da tarde noite. Os prncipes mais no tm que os ttulos por glria, honras 
exteriores para um interior tormento, e em lugar de imaginados prazeres irreais, eles muitas vezes sentem um mundo de desassossegados cuidados. De sorte que entre 
seus ttulos e um humilde nome no h qualquer diferena seno a fama exterior.
     (Entram os dois assassinos)
     PRIMEIRO ASSASSINO - Eh, quem est aqui?
     BRAKENBURY - Que queres, companheiro? E como chegaste at aqui?
     SEGUNDO ASSASSINO - Queria falar a Clarence, e cheguei aqui pelas minhas pernas.
     BRAKENBURY - Qu, to breve?
     PRIMEIRO ASSASSINO -  melhor, senhor, do que ser importuno. Deixa-o ver a ordem que trazemos e no fales mais.
     (Brakenbury l)
     BRAKENBURY - Isto me manda entregar o nobre Duque de Clarence em vossas mos. No discutirei o que trs isto se esconde. Ficarei eu inocente do intento. Ali 
est o Duque adormecido, e ali as chaves. Irei junto de El-Rei, e lhe direi que a vs entreguei o meu encargo.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Senhor, ide. Assim manda a prudncia. Ide em paz.
     (Saem Brakenbury e guardas)
     SEGUNDO ASSASSINO - Ento, mato-o enquanto dorme?
     PRIMEIRO ASSASSINO - No. Assim ele dir, quando acordar, que agimos com covardia.
     SEGUNDO ASSASSINO - Ora, ele nunca acordar seno no Dia do Juzo.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Ora, e ento vai dizer que o matamos quando dormia.
     SEGUNDO ASSASSINO - Essa palavra "juzo", de pesada, fez nascer em mim a modos que um remorso.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Qu, tens medo?
     SEGUNDO ASSASSINO - No de o matar - porque tenho ordem - mas de ser condenado por o ter morto, e disso no h ordem que defenda.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Cuidei que estavas determinado.
     SEGUNDO ASSASSINO - E estou, a deix-lo viver.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Irei junto do Duque de Gloucester e isso lhe contarei.
     SEGUNDO ASSASSINO - No, peo-te que fiques um instante. Espero que se mude este meu humor apaixonado. Costuma durar s o tempo de contar at aos vinte.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Como te sentes agora?
     SEGUNDO ASSASSINO - H ainda em mim uns restos de conscincia.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Lembra-te do prmio, quando o feito estiver cumprido.
     SEGUNDO ASSASSINO - Com mil demnios, que morra! J me esquecera o prmio.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Onde est agora a tua conscincia?
     SEGUNDO ASSASSINO - Oh, na bolsa do Duque de Gloucester.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Quando ele abrir a bolsa para nos dar o prmio, a tua conscincia foge de l?
     SEGUNDO ASSASSINO - Isso no importa, deixa-a ir. H poucos que a tenham, ou mesmo ningum.
     PRIMEIRO ASSASSINO - E se ela voltar outra vez para ti?
     SEGUNDO ASSASSINO - No quero pacto com ela,  causa de covardia. No pode um homem roubar sem que ela o acuse; no pode um homem blasfemar sem que ela o censure; 
no pode um homem deitar-se com a mulher do vizinho, sem que ela o traia.  um esprito envergonhado, que cora, que faz motim no peito de um homem. Enche um homem 
de impedimentos. Uma vez fez-me entregar uma bolsa cheia de ouro que encontrei por acaso. Arruina todo aquele que ficar com ela. Foi expulsa das cidades e das vilas 
como coisa perigosa, e todo o homem que pretende viver bem faz por confiar em si e viver sem ela.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Com mil demnios, ela est agora mesmo aqui ao meu lado, a convencer-me a no matar o Duque.
     SEGUNDO ASSASSINO - Agarra o diabo em teu esprito e nele no creias. Era capaz de se meter por ti dentro s para te fazer suspirar.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Tenho forte estatura, no consegue vencer-me.
     SEGUNDO ASSASSINO - Falaste como um valente que respeita a fama que tem. Anda, lancemo-nos ao trabalho!
     PRIMEIRO ASSASSINO - Bate-lhe na cabeorra com os copos da tua espada, e depois atiramo-lo para dentro do barril de malvasia que est no quarto ao lado.
     SEGUNDO ASSASSINO - Oh, que excelente ardil! E faz-se dele umas sopas.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Chiu, que acorda.
     SEGUNDO ASSASSINO - Bate-lhe!
     PRIMEIRO ASSASSINO - No, vamos argumentar com ele.
     CLARENCE - Onde ests, guarda? D-me um copo de vinho.
     SEGUNDO ASSASSINO - Tereis em breve, senhor, todo o vinho que quiserdes.
     CLARENCE - Por Deus, quem s tu?
     SEGUNDO ASSASSINO - Um homem, tal como vs.
     CLARENCE - Mas no rgio como eu.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Nem vs leal, como ele e eu.
     CLARENCE - A tua voz  de trovo, mas o teu semblante humilde.
     PRIMEIRO ASSASSINO - A minha voz agora  a do Rei, e o semblante  o meu.
     CLARENCE - Quo sombria e funesta  a tua fala. Vossos olhos me ameaam. Porque vos pusestes plido? Quem vos mandou aqui? Para que viestes vs?
     AMBOS - Para... para... para...
     CLARENCE - Para me matar?
     AMBOS - Sim, sim.
     CLARENCE - Quase no tendes corao para mo dizer, E por isso no tereis corao para o fazer. Amigos, em que vos ofendi?
     PRIMEIRO ASSASSINO - No nos ofendestes a ns, ofendestes ao Rei.
     CLARENCE - Ainda um dia estarei em paz com ele.
     SEGUNDO ASSASSINO - Nunca, senhor. Por isso aparelhai-vos para a morte.
     CLARENCE - Haveis sido arrancados ao mundo dos homens para matar o inocente? Que ofensa  a minha? Onde est a prova que me acusa? Que demanda forneceu o veredicto 
ao severo juiz? Ou quem pronunciou amarga sentena da morte do pobre Clarence? Antes de ser condenado pela fora da lei,  mui fora de lei ameaar-me com a morte. 
Eu vos ordeno, posto que esperais a redeno, pelo sagrado sangue de Cristo, derramado por nossos grandes pecados, que partais e que no ponhais vossas mos sobre 
mim.  condenvel o feito que empreendeis.
     PRIMEIRO ASSASSINO - O que faremos ser por obedincia.
     SEGUNDO ASSASSINO - E foi o nosso Rei quem ordenou.
     CLARENCE - Cegos vassalos! O Sumo Rei dos reis ordenou na grande tbua dos seus mandamentos: no matars. Escarnecereis ento da sua ordem, e cumprireis a ordem 
de um mortal? Havei cuidado! Porque Ele tem a vingana em Sua mo. Para a lanar sobre as cabeas dos que quebram Sua lei.
     SEGUNDO ASSASSINO - E a mesma vingana ele a lana sobre ti. Por perjrio e tambm por assassnio. No altar haveis jurado lutar pela Casa de Lancastre.
     PRIMEIRO ASSASSINO - E, qual traidor do nome do Senhor, quebraste o voto, e com tua traioeira lmina rasgaste as entranhas ao filho do teu Rei.
     SEGUNDO ASSASSINO - A quem havias jurado estimar e defender.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Como podes chamar contra ns a terrvel lei de Deus quando tu a violaste e to fundamente?
     CLARENCE - Coitado de mim, por quem cometi eu obra to funesta? Por Eduardo, por meu irmo, por ele. No vos manda ele matar-me por essa razo, porque em tal 
pecado est ele to metido como eu. Se Deus quiser vingar um tal cometimento, ficai sabendo, Ele o far sem qualquer encobrimento. No usurpeis a querela ao Seu 
brao poderoso. Ele no precisa de meios nvios ou sem lei para punir aqueles que O ofenderam.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Quem te tornou ministro sangrento quando o valoroso, galante e promissor Plantageneta, esse tenro prncipe, sucumbiu s tuas mos?
     CLARENCE - O amor a meu irmo, o demnio e a minha clera.
     PRIMEIRO ASSASSINO - O amor a teu irmo, o nosso dever e os teus crimes nos levam agora a matar-te.
     CLARENCE - Oh, se amais meu irmo, no me odieis. Sou seu irmo, e tenho-o em grande estima. Se vos pagam por tal cometimento, ide-vos, e eu vos enviarei a 
meu irmo Gloucester, que pela minha vida maior prmio vos dar do que Eduardo pela nova de minha morte.
     SEGUNDO ASSASSINO - Estais enganado, vosso irmo Gloucester odeia-vos.
     CLARENCE - Oh, no, ele ama-me, e tem por mim profunda estima. Ide da minha parte junto dele.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Pois, assim faremos.
     CLARENCE - Dizei-lhe que quando o nosso ilustre pai York deu a bno a seus trs filhos com seu brao vitorioso, e do fundo da sua alma ordenou que nos amssemos 
uns aos outros, ele no tinha em mente esta amizade rompida. Dizei a Gloucester que atente nisto, e ele chorar.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Sim, pedras, assim nos ensinou a chorar.
     CLARENCE - Oh, no o calunieis, porque ele  bom.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Decerto, como a neve para a seara. Vamos, estais a iludir-vos.  ele quem nos manda para aqui vos destruirmos.
     CLARENCE - No pode ser assim, porque ele chorou a minha sorte. E me abraou, e jurou soluando que havia de porfiar por alcanar a minha liberdade.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Pois  o que ele faz, com libertar-vos do vale de lgrimas desta terra para as alegrias do cu.
     SEGUNDO ASSASSINO - Fazei a paz com Deus, porque ides morrer, senhor.
     CLARENCE - Haveis em vossas almas esse sagrado sentimento que me d conselho de fazer a paz com Deus e estais to cegos com respeito a vossas almas que quereis 
fazer guerra a Deus com a minha morte?  senhores, considerai. Os que vos moveram a esta obra, por tal obra vos odiaro.
     SEGUNDO ASSASSINO - Que faremos?
     CLARENCE - Tende piedade, e salvai as vossas almas.
     PRIMEIRO ASSASSINO - Ter piedade! No, isso  covardia e feminil fraqueza.
     CLARENCE - No ter piedade  feroz, selvagem e prprio do demnio. Qual de vs, se fosse filho de um prncipe, estando como eu privado de liberdade, se dois 
assassinos como vs se aproximassem no imploraria a vida? Ah, vs haveis de a pedir, se vivsseis a minha m fortuna. (Para o segundo assassino) Amigo, entrevejo 
piedade no teu gesto. Oh, se os teus olhos no forem fingidores, passa para meu lado, e intercede por mim. Um prncipe pedinte, que pedinte o no lastima?
     SEGUNDO ASSASSINO - Olhai para trs, senhor!
     PRIMEIRO ASSASSINO - Toma! Toma! (Apunhala-o) Se tudo isto no bastar, vou afogar-vos no barril de malvasia. (Sai com o corpo)
     SEGUNDO ASSASSINO - Feito sangrento, e cometido em desespero. Com vontade lavaria as mos, como Pilatos, deste assassnio to atroz. (Entra o primeiro assassino) 
E ento? Que razes tiveste tu para me no ajudares? Com mil demnios, o Duque ter conhecimento da tua covardia.
     SEGUNDO ASSASSINO - Oxal ele soubesse que eu tinha salvo o irmo. Fica tu com o prmio e conta-lhe o que eu te digo porque estou arrependido de estar assassinado 
o Duque. (Sai)
     PRIMEIRO ASSASSINO - Eu no. Vai, covarde que tu s. Bem, vou esconder o corpo em alguma cova, at que o Duque ordene a sua sepultura, e quando tiver o meu 
prmio, ir-me-ei, porque isto se saber, e eu no posso ficar aqui. (Sai)

      
ATO II
Cena I
      
(Toque de trombetas. Entram o Rei Eduardo, a Rainha Isabel, Dorset, Rivers, Hastings, Buckingham e Grey)
      
     REI EDUARDO IV - Assim , fiz o trabalho de um dia bom. Vs, pares, conservai unida esta aliana. Espero em cada dia uma embaixada do meu Redentor, para daqui 
me redimir, e numa paz maior partir minha alma para os cus, eis que concertei a paz na terra entre os meus amigos. Rivers e Hastings, apertai a mo, no dissimuleis 
o vosso dio, jurai o vosso amor.
     RIVERS - Pelos cus, est minha alma limpa de dios rancorosos, e com minha mo selo o amor de meu corao leal.
     HASTINGS - Prospere eu tanto quanto  verdade essa mesma jura que ora fao.
     REI EDUARDO IV - Acautelai-vos, no useis de fingimento perante vosso Rei, para que Aquele que  o Sumo Rei dos Reis no desconcerte vossa escondida falsidade 
e no determine ser cada um de vs o fim do outro.
     HASTINGS - Prospere eu tanto quanto  perfeito o amor que eu ora juro.
     RIVERS - E eu, que estimo Hastings do fundo do corao.
     REI EDUARDO IV - Senhora, vs no sois estranha a isto. Nem vs, filho Dorset, Buckingham, nem vs. Haveis sido facciosos, um contra o outro. Esposa minha, 
estimai o senhor de Hastings, deixai-o beijar vossa mo. E o que fizerdes, fazei-o sem fingimento.
     ISABEL - Aqui a tendes, Hastings. No mais terei memria do nosso antigo dio, assim eu e os meus prosperem.
     REI EDUARDO IV - Dorset, abraai-o. Hastings, estimai o senhor Marqus.
     DORSET - Esta troca de estima, aqui o asseguro, por minha parte no ser manchada.
     HASTINGS - Assim tambm o juro.
     (Abraam-se)
     REI EDUARDO IV - Agora, ilustre Buckingham, sela tu esta aliana, abraando os aluados de minha esposa, e faz-me feliz com esta vossa unio.
     BUCKINGHAM - Se alguma vez Buckingham lanar seu dio sobre Vossa Graa, se no vos estimar, a vs e aos vossos, com respeitoso amor, que Deus me castigue com 
o dio daqueles de quem eu mais amor espero. No momento em que eu mais precisar de um amigo, e mais certeza tiver de que ele  amigo, que ele seja para mim escuro, 
vazio, enganador e cheio de fel.  o que eu imploro a Deus quando meu amor tiver arrefecido para vs e para os vossos.
     (Abraam-se)
     REI EDUARDO IV - Um doce refrigrio, ilustre Buckingham,  este voto teu para meu doente corao. Falta agora aqui nosso irmo Gloucester para com felicidade 
firmar a nossa paz.
     (Entram Ratcliffe e Ricardo)
     BUCKINGHAM - E em boa hora ali vm o senhor Ricardo de Ratcliffe e o Duque.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Um bom dia ao meu soberano Rei e  Rainha; e aos ilustres pares, um tempo feliz.
     REI EDUARDO IV - Feliz, sim, como passamos o dia. Gloucester, fizemos aes caridosas, fizemos da inimizade paz, do dio leal amor, entre estes pares arrogantes 
e sem razo incensados.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Abenoado trabalho, meu senhor mui soberano. Se, de entre esta ilustre companhia, algum aqui, por perverso entendimento ou 
falsa suposio, me tem por inimigo, se eu, involuntariamente ou movido pela ira, tiver alguma vez cometido, o que com dificuldade se aceita, contra algum aqui 
presente, desejo conciliar-me com sua amvel paz, viver em inimizade  morte para mim. Eu tal odeio, e desejo a estima dos homens bons. Imploro primeiro a vs, senhora, 
uma vera paz. Que retribuirei com servio respeitoso. E a vs, meu nobre primo Buckingham, se alguma vez ressentimento entre ns houve. E a vs, senhor de Rivers, 
e senhor de Grey, e a vs todos os que sem razo me malqueiram, duques, condes, senhores, fidalgos, a todos vs, a todos, no conheo ingls algum contra o qual 
minha alma se levante mais do que faria um menino acabado de nascer. Dou graas a Deus por minha humildade.
     ISABEL - Este  um dia santo e para sempre assim guardado. Provera a Deus que houvesse remdio para todas as contendas. Meu soberano senhor, imploro a Vossa 
Alteza que estenda a Vossa Graa a nosso irmo Clarence.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Qu, senhora! Ofereci eu o meu amor para tal, para assim ser escarnecido nesta presena rgia? Quem no sabe que est morto 
o gentil Duque? (Todos se sobressaltaram) Vs o injuriais, zombando do seu cadver!
     RIVERS - Quem no sabe que ele est morto? Mas quem sabe que ele est morto?
     ISABEL - Cus que tudo vedes, que mundo  este?
     BUCKINGHAM - Estarei to plido, senhor de Dorset, como esto todos os outros?
     DORSET - Estais, senhor, e no h ningum aqui presente a quem a cor do rosto se no tenha mudado.
     REI EDUARDO IV - Clarence est morto? A ordem era j outra.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Mas ele, pobre homem,  vossa ordem primeira morreu, e essa um Mercrio com asas transportou. Algum coxo vagaroso levou a ordem 
contrria e chegou to tarde que nem o enterro viu. Deus permita que alguns, menos nobres e menos leais, mais prximos nos pensamentos sanguinosos, mas menos no 
sangue, e que no entanto so livres de suspeio, meream a mesma sorte que o desditoso Clarence.
     (Entra Stanley, Conde de Derby)
     STANLEY - Recompensa, meu soberano, pelo servio prestado!
     REI EDUARDO IV - Deixa-me, eu te peo; minha alma  prenhe de amargura.
     STANLEY - No me levantarei enquanto Vossa Alteza no me ouvir.
     REI EDUARDO IV - Ento diz de contnuo o que desejas.
     STANLEY - A graa, meu soberano, da vida de um meu criado que assassinou hoje um fidalgo desordeiro que a este tempo servia o Duque de Norfolk.
     REI EDUARDO IV - Tenho lngua que condena  morte o meu irmo e essa mesma lngua dar perdo a um escravo? Meu irmo no matou homem algum, seu crime foi o 
pensamento, e contudo o castigo foi a morte amarga. Quem me rogou em seu favor? Quem, em minha ira, se ajoelhou a meus ps e me pediu que ponderasse? Quem falou 
de fraternal amor? Quem falou de amor? Quem me contou que aquela alma triste abandonou o poderoso Warwick e combateu por mim? Quem me contou que, na batalha, em 
Tewkesbury, quando Oxford me derrubou, ele me salvou e disse: "Querido irmo, vive e s rei"! Quem me contou, quando estvamos ns ambos deitados no campo, quase 
mortos pelo frio, que ele me cobriu com suas prprias vestiduras, e se entregou magro e nu,  noite mui fria? Tudo isto de minha lembrana a bruta ira em pecado 
arrancou, e de entre vs no houve um s que tivesse bondade bastante para mo pr em mente. Mas quando vossos carreteiros ou vossos servos brios cometem um assassnio, 
e maculam a preciosa imagem de nosso querido Redentor, logo vos pondes de joelhos pedindo "perdo, perdo!" E eu, injusto em demasia, sou forado a conced-lo. Mas 
em favor de meu irmo no falou homem algum. Nem eu, desgraado, para mim prprio falei em seu favor, coitado. Os mais orgulhosos de entre vs deviam-lhe favores 
durante a vida, mas nenhum de vs intercedeu uma s vez pela vida dele.  Deus, temo que por tal se abata sobre mim Tua justia, e sobre vs, e sobre os meus e sobre 
os vossos. Vinde, Hastings, ajudai-me a chegar a minha cmara. Oh, pobre Clarence!
     (Saem algumas pessoas com o Rei e a Rainha)
     RICARDO (Duque de Gloucester) - So estes os frutos da leviandade: no haveis notado como os culpados parentes da Rainha empalideceram com ouvir dizer a morte 
de Clarence? Oh, foram eles que com insistncia a exigiram de El-Rei. Deus ving-lo-. Vinde, senhores, vinde confortar Eduardo com a nossa companhia.
     BUCKINGHAM - Servimos Vossa Graa.
     (Saem)

      
Cena II
      
(Entra a velha Duquesa de York com os dois filhos de Clarence.)
      
     MENINO - Dizei-me, av querida, o nosso pai morreu?
     DUQUESA DE YORK - No, menino.
     MENINA - Porque chorais tantas vezes e porque bateis no peito? E porque gritais: "Oh, Clarence, meu desafortunado filho"?
     MENINO - Porque olhais para ns e meneais a cabea, e nos chamais rfos, infelizes, condenados, se ainda vive o nosso nobre pai?
     DUQUESA DE YORK - Meus primos queridos, no me haveis entendido: eu lamento a doena de El-Rei com medo de o perder, no a morte de vosso pai. Seria dor perdida 
chorar por quem perdido est.
     MENINO - Confessais, ento, av, que ele morreu. El-Rei, meu tio,  culpado. Deus ving-lo-, Deus: a quem eu hei de importunar com preces honestas, todas a 
isso destinadas.
     MENINA - E eu tambm.
     DUQUESA DE YORK - Sossegai, meninos, sossegai. El-Rei ama-vos muito. Frgeis e nscios inocentes, no podeis imaginar quem foi causa da morte de vosso pai.
     MENINO - Podemos, av, porque meu bom tio Gloucester me disse que El-Rei, movido a tal pela Rainha, imaginou acusaes para o prender, e quando meu tio me contou 
isto chorava e me lamentava, e com afeio me beijou a face. Mandou-me que confiasse nele como se fora meu pai e ele me amaria com ternura como se eu fora seu filho.
     DUQUESA DE YORK - Oh, que a hipocrisia se disfarce em forma to gentil e esconda o profundo vcio com viseira virtuosa! Ele  meu filho, sim, e a est minha 
afronta, mas no foi de meus peitos que ele bebeu hipocrisia.
     MENINO - Cuidais, av, que meu tio dissimulou?
     DUQUESA DE YORK - Menino, assim o cuido.
     MENINO - Eu no posso assim cuidar. Ouvi, que rumor  este?
     (Entra a Rainha Isabel com o cabelo desgrenhado, Rivers e Dorset atrs dela.)
     ISABEL - Ah! Quem me impedir de lamentar e chorar, de maldizer minha sorte e de a mim prpria me atormentar? Contra minha alma eu me juntarei ao negro desespero 
e farei de mim prpria inimiga.
     DUQUESA DE YORK - A que vem esta cena de to rude impacincia?
     ISABEL - Vem causar um ato de trgica violncia. Eduardo, o meu senhor, teu filho, nosso Rei, morreu. Porque crescem os ramos, quando a raiz se foi? Porque 
no secam as folhas que necessitam da seiva? Se viverdes, lamentai. Se morrerdes, sede breves, para que as nossas almas de asas velozes possam apanhar a alma de 
El-Rei ou segui-lo como vassalos obedientes at seu novo reino de imutvel noite.
     DUQUESA DE YORK - Ah, tanto interesse tenho eu em tua dor, quanto tinha influio sobre teu nobre esposo. Chorei a morte de um esposo virtuoso, e vivi a contemplar 
suas imagens. Porm estora dois espelhos de sua figura de prncipe esto quebrados em pedaos pela maligna morte, e eu, por refrigrio, no hei mais que um falso 
espelho, que me enoja quando vejo nele minha vergonha. Tu s viva, porm s me, e teus filhos por amparo ainda tens. Mas a morte arrancou meu esposo dos meus braos 
e retirou das minhas dbeis mos duas muletas, Clarence e Eduardo. Oh, que razes no terei, se tuas queixas so s metade das minhas, para vencer tua dor e abafar 
teus brados.
     MENINO - Ah, tia, no haveis chorado a morte de nosso pai. Como vos podemos ns confortar com nossos prantos?
     MENINA - Nossa tristeza de meninos sem pai ningum chorou. Que ningum chore tambm a vossa dor de viva.
     ISABEL - No me ajudeis em meus lamentos, sou bem capaz de manifestar meus nojos. Todas as fontes conduzem suas guas a meus olhos para que eu, governada pela 
mida lua, possa verter lgrimas tamanhas que o mundo inundem. Oh, por meu esposo, por meu querido senhor Eduardo!
     MENINOS - Oh, por nosso pai, por nosso querido senhor de Clarence!
     DUQUESA DE YORK - Coitada de mim, por pelos dois, por meu Eduardo e por meu Clarence!
     ISABEL - No tinha outro amparo afora Eduardo, e ele  morto.
     MENINOS - No tnhamos outro amparo afora Clarence, e ele  morto!
     DUQUESA DE YORK - No tinha outros amparos afora eles, e eles so mortos.
     ISABEL - Viva nunca houve que sofresse perda to dolorida.
     MENINOS - rfos nunca houve que sofressem perda to dolorida.
     DUQUESA DE YORK - Me nunca houve que sofresse perda to dolorida coitada de mim, sou me destes pesares. As dores que tm so pedaos, a dor que tenho  inteira. 
Ela chora um Eduardo, e eu tambm. Eu choro um Clarence, mas ela no. Estes meninos choram Clarence, e eu tambm. Eu choro um Eduardo, mas eles no. Coitada de mim; 
em triplicada dor, sobre mim vs trs. Todas as vossas lgrimas verteis. Sou ama de vossa dor e com lamentaes a embalarei.
     DORSET - Conformai-vos, querida me. A Deus no apraz que sua obra aceiteis com ingratido. Nas coisas mundanas, si dizer-se que  ingrato pagar com sombria 
malquerena uma dvida que mo generosa amavelmente consertou. Assim muito mais contrria estais ao cu que exige a rgia dvida do emprstimo que vos fez.
     RIVERS - Qual me extremosa, senhora, pensai no jovem Prncipe, vosso filho. Mandai-o buscar. Que ele seja coroado. Nele reside o vosso amparo. Enterrai a desatinada 
dor no tmulo de Eduardo morto e plantai as alegrias vossas no trono de Eduardo vivo.
     (Entram Ricardo, Buckingham, Stanley, Conde de Derby, Hastings e Ratcliffe.)
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Irm, conformai-vos. Todos ns temos razes de chorar o empalidecer de nossa estrela brilhante, mas ningum chorando cura suas 
mgoas. Senhora, minha me, imploro-vos perdo, Vossa Graa no vi. Posto de joelhos humildemente a vossa bno suplico. (Ajoelha)
     DUQUESA DE YORK - Que Deus te abenoe, e ponha brandura em teu peito, amor, caridade, obedincia e lealdade.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Amem. (Levanta-se.) ( parte). E me traga a morte em boa avanada idade.  esta a concluso da bno de uma me. Maravilhado 
estou que Sua Graa a tenha deixado fora.
     BUCKINGHAM -  vs, soturnos prncipes e pares de corao despedaado que suportais este to pesado fardo mtuo de lamentaes, alegrai-vos ora no amor entre 
vs todos. Se bem que tenhamos deste rei perdido nosso fruto, novo fruto colheremos de seu filho. O rancor que correu da chaga de vossos dios, h to pouco cortada, 
cosida e reunida, com temperana deve ser cuidado, tratado e resguardado. Julgo ser razo que o jovem prncipe com pequena companhia contino venha de Ludlow at 
Londres para ser coroado novo Rei.
     RIVERS - Por qu com pequena companhia, meu senhor de Buckingham?
     BUCKINGHAM - Por minha f, senhor meu, para que no se abra na fora do ajuntamento a chaga da maldade h to pouco curada, o que teria tanto mais perigo quanto 
est tenro o estado e ainda sem governo. Quando os cavalos tomam as rdeas que os conduzem e podem dirigir-se como bem lhes apraz, cuido eu que devemos evitar tanto 
o temor do mal, como o mal que se v.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Espero que o Rei nos tenha consertado a todos e o juramento  firme e leal dentro em mim. E dentro em mim tambm, e da mesma 
feio cuido, dentro em todos ns. Porm, como a paz  ainda muito tenra, no devia ser posta diante qualquer visvel aparncia de rompimento, que podia por acaso 
surgir com companhia assim. Por isso digo com o nobre Buckingham que avisado  mandar pelo Prncipe to pouca gente.
     HASTINGS - O mesmo digo eu.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Ento que assim seja, e vamos determinar quem contino se partir para Ludlow. Senhora, e vs, minha irm, quereis dar vosso 
parecer nesta questo?
     ISABEL e DUQUESA - De todo o corao.
     (Saem todos exceto Buckingham e Ricardo)
     BUCKINGHAM - Senhor meu, por Deus no fiquemos ambos em casa, seja quem for que viaje a buscar o prncipe, porque na jornada eu acharei ocasio, em seguimento 
do que h pouco conversamos, de apartar do prncipe os orgulhosos parentes da Rainha.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Meu outro eu, meu conslio, meu orculo, meu profeta, meu querido primo, eu, como criana, por ti me deixarei guiar. Ento para 
Ludlow, no ficaremos para trs.
     (Saem)

      
Cena III
      
(Entra um cidado por uma porta e outro por outra porta.)
      
     PRIMEIRO CIDADO - Bom dia, vizinho; aonde is com tanta pressa?
     SEGUNDO CIDADO - Crede que nem eu prprio sei. Haveis ouvido as novas?
     PRIMEIRO CIDADO - Ouvi, que o Rei morreu.
     SEGUNDO CIDADO - Ms novas, Jesus Maria Jos; uma nova m nunca vem s receio, receio que isto traga desgraas para o mundo.
     (Entra outro cidado)
     TERCEIRO CIDADO - Vizinhos, Deus vos salve.
     PRIMEIRO CIDADO - Tende um bom dia, senhor.
     TERCEIRO CIDADO -  vera a nova da morte de El-Rei Eduardo?
     SEGUNDO CIDADO -  senhor, sim, infelizmente  vera, Deus nos acuda.
     TERCEIRO CIDADO - Ento, meus senhores, aparelhai-vos para ver desgraas grandes.
     PRIMEIRO CIDADO - No, no, pela boa graa de Deus, o filho dele ser Rei.
     TERCEIRO CIDADO - Ai da terra governada por infante.
     SEGUNDO CIDADO - Nele esperana de governao h, em sua idade menor, por um conselho em seu nome, e por si prprio em sua idade maior e em seus maduros anos. 
Decerto bom regimento haver ento e at l tambm.
     PRIMEIRO CIDADO - Assim estava o reino quando Henrique VI foi coroado em Paris na idade de apenas nove meses.
     TERCEIRO CIDADO - Assim estava? No, no, amigos meus, Deus  disso testemunha. Que nesse tempo esta terra era bem rica em sbios, sisudos conselheiros. Ento 
o Rei tinha tios virtuosos que protegiam Sua Graa.
     PRIMEIRO CIDADO - Ora, este tambm tem, tanto pelo pai como pela me.
     TERCEIRO CIDADO - Antes fossem todos pelo pai, ou pelo pai nenhum houvesse, porque a disputa sobre quem estar mais perto, de mui perto nos tocar a todos, 
se Deus no nos poupar. Oh, mui perigoso  o Duque de Gloucester, e altivos e orgulhosos os filhos e irmos da Rainha. E, se fossem governados e no governassem, 
esta terra achacosa bem podia retomar suas foras como outrora.
     PRIMEIRO CIDADO - Ora, ora, receamos o pior, tudo terminar bem.
     TERCEIRO CIDADO - Quando vem nuvens, os homens prudentes vestem suas capas; quando caem muitas folhas, est o Inverno chegando; quando o Sol se pe, quem 
h que no espere a noite? Tempestades fora de sazo fazem que os homens receiem a pobreza. Tudo pode terminar bem, mas se Deus assim quiser.  mais do que merecimento 
nosso, ou que esperana minha.
     SEGUNDO CIDADO - De verdade, os coraes dos homens prenhes de medo esto. Quase no  possvel dispensar razes com homem que no semelhe cuidoso e temeroso.
     TERCEIRO CIDADO - Sempre assim  antes dos dias de mudana. Por divino instinto as mentes dos homens pressentem o perigo que a vem, como se v subir as guas 
antes de grande procela.
     SEGUNDO CIDADO - Por minha f, fomos chamados aos juizes.
     TERCEIRO CIDADO - E eu tambm. Irei em vossa companhia.
     (Saem)

      
Cena IV
      
(Entram o Arcebispo de York, o jovem Duque de York, a Rainha Isabel e a Duquesa de York.)
      
      ARCEBISPO - Ouvi contar que ontem  noite repousaram em Stony Stratford e que em Northampton se quedaro esta noite. Amanh, ou depois, aqui estaro.
     DUQUESA DE YORK - Desejo mui ardentemente ver o Prncipe espero que muito tenha crescido desde que o hei visto pela derradeira vez.
     ISABEL - Ouvi contar que assim no . Dizem que meu filho j quase o passou em altura.
     DUQUE DE YORK - Sim, minha me, desejaria que eu assim no fosse.
     DUQUESA DE YORK - Porque, meu bom primo?  bom crescer.
     DUQUE DE YORK - Av, uma noite, como estvamos sentados a cear, meu tio Rivers disse que eu tinha crescido mais que meu irmo. "Sim", disse meu tio Gloucester, 
"as plantas pequenas so graciosas, as ervas ruins crescem depressa" e por isso cuido que no gostaria de crescer com tanta pressa, porque as formosas flores so 
lentas e as ervas ruins apressuradas.
     DUQUESA DE YORK - Pelos cus, tal ditado no se conserta com aquele que tal razo contra si despendeu. Era coisa mui mesquinha quando era criana, to demorado 
no crescer, to retardado, que se tal lei fora verdade ele seria a graa mesma.
      ARCEBISPO - E sem dvida o , minha senhora graciosa.
     DUQUESA DE YORK - Espero que assim seja, mas deixai que as mes possam duvidar.
     DUQUE DE YORK - Por minha f, se me lembrara, podia ter zombado da Graa de meu tio, escarnecendo de seu crescer mais do que ele do meu.
     DUQUESA DE YORK - De que sorte, meu jovem York? Peo que mo contes.
     DUQUE DE YORK - Ora, dizem que meu tio cresceu to depressa que podia morder uma cdea com duas horas de idade. Eu bem dois anos vivi sem que um dente tivesse. 
Av, isto seria um brinco mordace!
     DUQUESA DE YORK - Diz-me, formoso York, quem te contou cenas tais?
     DUQUE DE YORK - Av, a ama dele mo contou.
     ISABEL - A ama dele? Mas se ela morreu antes que tu nada fosses.
     DUQUE DE YORK - Se no foi ela, j no sei quem foi.
     ISABEL - Sagaz mancebo, s por demais astuto.
     DUQUESA DE YORK - Senhora, no vos agasteis com o infante.
     ISABEL - Ouve mais do que deve.
     (Entra um mensageiro)
      ARCEBISPO - A vem um mensageiro. Que novas?
     MENSAGEIRO - Novas tais, senhor, que  doloroso cont-las.
     ISABEL - Como est o Prncipe?
     MENSAGEIRO - Senhora, bem e de boa sade.
     DUQUESA DE YORK - Que novas trazes?
     MENSAGEIRO - O senhor de Rivers e o senhor de Grey foram mandados para Pomfret, e com eles o senhor Toms de Vaughan, todos eles cativos.
     DUQUESA DE YORK - Quem os prendeu?
     MENSAGEIRO - Os poderosos duques de Gloucester e de Buckingham.
      ARCEBISPO - Por que ofensa?
     MENSAGEIRO - Tudo o que sabia j vos relatei: por que razo ou por qu os fidalgos foram presos, ignoro, meu gracioso senhor.
     ISABEL - Coitada de mim! Vejo a runa de minha casa: o tigre pilhou a tmida cora, a insultuosa tirania comea a engrossar por sobre o inocente e indefeso 
trono. Bem-vindos sejam o estrago, o sangue e a carnificina: vejo, como num mapa, o fim de tudo.
     DUQUESA DE YORK - Inseguros e malditos dias de contendas, quantos de vs j meus olhos no viram! Perdeu meu marido a vida para alcanar a coroa, e amide foram 
meus filhos lanados ora acima, ora abaixo para que eu me alegrasse ou chorasse com seus ganhos ou perdas. E alcanado o poder, passadas que foram as domsticas 
tormentas, eles prprios, vencedores, repugnantes se arremessam em guerras, irmo contra irmo, sangue contra sangue, cada um contra si prprio. O dio, desarrazoado 
e cheio de frenesi, pe fim a teu furor danado, ou deixa-me morrer, para que eu no volte a ver a morte.
     ISABEL - Vem, vem, meu menino. Vamos para o santurio. Senhora, adeus.
     DUQUESA DE YORK - Esperai, eu vos acompanho.
     ISABEL - No haveis para tal razo.
      ARCEBISPO - Senhora minha, ide, e para l levai vossas riquezas e vossos bens. Por mim, entrego a Vossa Graa o selo que guardo, e assim Deus me proteja to 
bem quanto eu vos estimo a vs e aos vossos. Ide, conduzir-vos-ei ao santurio.
     (Saem)

      
ATO III
Cena I
      
(Soam trombetas. Entram o jovem Prncipe Eduardo, os Duques de Gloucester e de Buckingham, o senhor Cardeal Bourchier, Catesby e outros)
      
     BUCKINGHAM - Bem-vindo, doce Prncipe, a Londres, vosso aposento.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Bem-vindo, querido primo, soberano dos meus pensamentos. O caminho, de cansao tornou-vos melanclico.
     PRNCIPE EDUARDO - No, tio, mas as contrariedades na viagem tornaram-na aborrecida, trabalhosa e grave. Quero eu aqui mais tios para me acolherem.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Doce Prncipe, a virtude isenta de vossos anos no se internou ainda nos enganos do mundo. De um homem mais no podeis distinguir 
do que a sua forma aparente, a qual - Deus o sabe - poucas vezes, ou mesmo nunca,  conforme ao corao. Os tios que desejais eram perigosos. Vossa Graa ouviu as 
suas brandas falas mas no viu o veneno em seus peitos. Deus vos guarde longe deles, e de to falsos amigos!
     PRNCIPE EDUARDO - Deus me defenda de falsos amigos, mas eles no eram tal.
     (Entra o Alcaide com squito.)
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Meu senhor, o Alcaide de Londres, vem cumprimentar-vos.
     ALCAIDE - D Deus a Vossa Graa sade e felicidade!
     PRNCIPE EDUARDO - Eu vos agradeo, meu bom senhor, e a todos vs. Cuidei que minha me e meu irmo York h largo tempo teriam ido ao nosso encontro. Vergonha! 
Que lesma  esse Hastings que no vem para nos dizer se so vindos ou no so.
     (Entra o senhor de Hastings.)
     BUCKINGHAM - E em boa altura a vem o lasso senhor.
     PRNCIPE EDUARDO - Bem-vindo, senhor. Ento, vir a ver-nos nossa me?
     HASTINGS - Por qualquer razo que s Deus sabe, eu no sei, a rainha vossa me e vosso irmo York seguiram para um santurio. Gostaria o jovem Prncipe de ter 
comigo vindo ao encontro de Vossa Graa, mas foi por sua me impedido de o fazer.
     BUCKINGHAM - Vergonha! Que feio enganadora e arrogante. E a dela! Senhor Cardeal, poder Vossa Graa persuadir a Rainha a neste momento mandar aqui o Duque 
de York junto de seu nobre irmo? Se ela negar, senhor de Hastings, ide vs com ele, e arrancai-o de fora a seus ciumentos braos.
     BOURCHIER - Meu senhor de Buckingham, se minha fraca retrica puder arrancar o Duque de York a sua me, esperai-o em breve aqui. Mas se for ela surda a suaves 
pedidos, que Deus nos cus impea que violemos o santo privilgio do sagrado santurio! Nem por amor desta terra toda seria eu culpado de pecado to nefando.
     BUCKINGHAM - Sois, senhor meu, demasiado insano e rigoroso, tendes demasiado acatamento por cerimnias e usanas. Ponde isso em balana com a rudeza destes 
tempos. No violais o santurio ao filar o prncipe. O benefcio do asilo est sempre assegurado aos que por seus atos tal lugar mereceram, e aos que tm a argcia 
de tal lugar pedir. O Prncipe nem o pediu nem o mereceu: e por essa causa, em meu juzo, no o pode ter. E assim, retirando-o de um lugar que no  esse, no rompeis 
nem leis nem privilgios. Ouvi amide falar de homens com asilo em santurios, mas de crianas nunca at agora ouvi.
     BOURCHIER - Por uma vez vencestes, senhor meu, meu pensamento. Vinde, senhor de Hastings, vindes comigo?
     HASTINGS - Vou, senhor meu.
     PRNCIPE EDUARDO - Bons senhores, ide to lestos quanto puderdes. (Saem o Cardeal e Hastings) Dizei-me, tio Gloucester, se o nosso irmo chegar, onde moraremos 
ns at sermos coroados?
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Onde melhor parea a Vossa Real pessoa. Se conselho vos posso dar, um dia ou dois se quedar na Torre Vossa Alteza. Depois, 
onde quiserdes e onde for julgado mais conforme a vossa melhor sade e vossa recreao.
     PRNCIPE EDUARDO - No gosto da Torre, no gosto, no. Foi Jlio Csar quem a edificou, senhor?
     BUCKINGHAM - Foi ele, meu gracioso senhor, quem comeou a edific-la e depois, nas sucessivas eras, de novo a edificaram.
     PRNCIPE EDUARDO - Est posto em crnica, ou  contado sucessivamente, de era em era, que ele a edificou?
     BUCKINGHAM - Em crnica, meu gracioso senhor.
     PRNCIPE EDUARDO - Mas dizei-me, senhor, se escrito no fosse cuido que a verdade viveria de era para era, porque seria contada a toda a posteridade at ao 
derradeiro dia.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) ( parte) - To sbio e to jovem, como si dizer-se, nunca haver longa vida.
     PRNCIPE EDUARDO - Que dizeis, tio?
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Digo que mesmo sem uso fazer dos caracteres, todo o prego tem longa vida. ( parte) E assim, tal como o diabo o faz nos autos, 
dou por moralidade a uma sentena dois sentidos.
     PRNCIPE EDUARDO - Esse Jlio Csar era homem famoso. Seu esprito usou para dar vida a seu valor, aquilo com que seu valor a seu esprito deu riqueza. A morte 
no vence este vencedor. Porque ele em sua fama agora vive, que no em sua vida. Uma coisa vos direi, meu primo Buckingham.
     BUCKINGHAM - Qu, meu gracioso senhor?
     PRNCIPE EDUARDO - Se eu viver at ser homem, conquistarei de novo nosso direito antigo  Frana, ou morrerei soldado tal como rei vivi.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Vero curto, Primavera precoce.
     (Entram o jovem Duque de York, Hastings e o Cardeal.)
     BUCKINGHAM - Em boa hora chega o Duque de York.
     PRNCIPE EDUARDO - Ricardo de York, como se encontra o nosso querido irmo?
     DUQUE DE YORK - Bem, meu temvel senhor - assim agora vos devo chamar.
     PRNCIPE EDUARDO - Sim, irmo, por nossa grande mgoa, como por vossa. Bem pouco tempo h que morreu quem devia merecer tal tratamento, o qual por essa morte 
perdeu muita majestade.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Como se encontra o nosso primo, nobre senhor de York?
     DUQUE DE YORK - Graas vos dou, gentil tio. Oh, senhor meu, Haveis dito que crescem depressa as ervas ruins; o Prncipe meu irmo cresceu muito mais que eu!
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Cresceu, senhor.
     DUQUE DE YORK - E  por isso ruim?
     RICARDO  (Duque de Gloucester) -  meu formoso primo, tal no posso eu dizer!
     DUQUE DE YORK - Ento vos deve ele mais gratido que eu.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Ele pode governar-me como meu soberano, mas vs tendes sobre mim poder como parente.
     DUQUE DE YORK - Peo-vos, tio, dai-me esse punhal.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - O meu punhal, meu pequeno primo? De todo o corao.
     PRNCIPE EDUARDO - A pedir, irmo?
     DUQUE DE YORK - A meu amvel tio, que eu sei dar, por no ser mais que brinquedo, coisa que no  mgoa dar.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Ddiva maior farei eu a meu primo.
     DUQUE DE YORK - Ddiva maior? Ah,  tambm a espada.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Sim, gentil primo, se ela mais leve fora.
     DUQUE DE YORK - Oh, ento vejo que vos separais s de coisas leves. Em coisas de mor peso negais a quem vos pede.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) -  pesada de mais para Vossa Graa a usar.
     DUQUE DE YORK - Cuido que  leve, ainda que mais pesada fora.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Qu, quereis ter minha arma, meu pequeno senhor?
     DUQUE DE YORK - Queria, para vos dar agradecimento igual ao nome por que me tratais.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Qual?
     DUQUE DE YORK - Pequeno.
     PRNCIPE EDUARDO - O meu senhor de York continua a ter lngua perversa. Mas, sabe Vossa Graa, tio, suport-lo.
     DUQUE DE YORK - Quereis dizer suportar meu peso s costas, e no suportar-me a mim. Tio, meu irmo zomba de vs e de mim tambm. Por ser eu pequeno como o macaco, 
cuida seria meu peso que vs deveis suportar em vossos ombros!
     BUCKINGHAM - Com que engenho defende ele suas razes. Para mitigar o escrnio que lana sobre o tio escarnece de si prprio com ligeireza e graa. Maravilha 
, to jovem e to sagaz.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Senhor, quereis vir? Eu e o meu bom primo Buckingham vamos ao encontro de vossa me, para assim lhe pedir que vos procure na 
Torre e vos sade.
     DUQUE DE YORK - Qu, ides para a Torre, senhor?
     PRNCIPE EDUARDO - O senhor meu protetor assim o quer.
     DUQUE DE YORK - No dormirei em paz na Torre.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Por que razo, que receais?
     DUQUE DE YORK - Que h de ser? A sombra irada de meu tio Clarence. Contou-me minha av que foi l assassinado.
     PRNCIPE EDUARDO - No me receio eu de tios que mortos so.
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Nem de nenhum que vivo seja, espero!
     PRNCIPE EDUARDO - E se vivos so, espero no precise de ter medo. Mas vinde, senhor. Com o corao grave, cuidando neles, eu me dirijo  Torre.
     (Toque de trombeta. Saem o Prncipe, York, Hastings, Dorset, Ricardo, Buckingham e Catesby)
     BUCKINGHAM - No cuidais, senhor meu, que este pequeno Prncipe foi movido por sua sutil me a to vergonhosamente zombar e escarnecer de vs?
     RICARDO (Duque de Gloucester) - Decerto, decerto. Oh,  mancebo perigoso: destemido, vivaz, engenhoso, atrevido, inteligente. Semelha a me, desde a cabea 
s pontas dos ps.
     BUCKINGHAM - Bom, deixai-os repousar. Vem aqui, Catesby. Hs jurado cumprir nossos intentos assim como guardar o que te confiamos. Conheces nossas razes, que 
te contamos na jornada. Que pensas tu? No  empresa fcil trazer D. Guilherme, o senhor de Hastings, para o intento que temos de colocar este nobre Duque no rgio 
assento desta afamada ilha?
     CATESBY - Tem ele em tanta estima o Prncipe, por amor de seu pai, que nenhuma coisa o mover a pr-se contra ele.
     BUCKINGHAM - E que pensas tu de Stanley? Ele no?
     CATESBY - Far tudo o que Hastings fizer.
     BUCKINGHAM - Bom, ento nada mais afora isto: vai, gentil Catesby, e como se de um rumor se tratara, colhe do senhor de Hastings o seu juzo acerca do nosso 
intento. E convoca-o para que amanh na Torre esteja presente na coroao. Se cuidares que poder ele pr-se a nosso lado, encoraja-o, e conta-lhe todas as nossas 
razes. Se ele endurecido estiver, frio, gelado, contra ns, mostra-te assim tambm, e d a conversao por finda, e diz-nos qual a sua disposio. Porque amanh 
haver dois conselhos separados, e neles tu prprio ters subido emprego.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - D minhas saudaes ao senhor D. Guilherme; diz-lhe, Catesby, que do antigo bando de seus adversrios perigosos correr amanh 
sangue no Castelo de Pomfret. E diz ao senhor que, no regozijo destas boas novas, d  senhora Shore um beijo mais.
     BUCKINGHAM - Bom Catesby, vai cumprir bem esta empresa.
     CATESBY - Senhores meus, com todo o zelo que posso.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Teremos novas de ti, Catesby, antes de nos deitarmos?
     CATESBY - Tereis, senhor.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Em Crosby Place, a nos encontrars.
     (Sai Catesby)
     BUCKINGHAM - E que faremos, senhor, se virmos que o senhor de Hastings  nossa conjura no d assentimento?
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - A cabea fora, homem, alguma coisa faremos. E olha, quando eu for rei pede-me o condado de Hereford e todos os seus bens movveis 
que eram pertena de El-Rei, meu irmo.
     BUCKINGHAM - Lembrarei essa promessa  mo de Vossa Graa.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - E olha que a cumprirei de todo o corao. Anda, vamos cear, para que depois possamos bem digerir nossas conjuras.
     (Saem)

      
Cena II
      
(Entra um mensageiro, que para  porta do senhor de Hastings. Bate  porta.)
      
     MENSAGEIRO - Senhor, senhor!
     HASTINGS (De dentro) - Quem est a?
     MENSAGEIRO - Algum com recado do senhor de Stanley.
     (Entra Hastings.)
     HASTINGS - Que hora ?
     MENSAGEIRO - Acabam de soar as quatro.
     HASTINGS - No poder o senhor de Stanley passar estas aborrecidas noites em paz?
     MENSAGEIRO - Parece que no, pelo que vos tenho a dizer. Antes do mais, ele sada Vossa Nobre Senhoria.
     HASTINGS - E que mais?
     MENSAGEIRO - Mais declara a Vossa Senhoria que esta noite sonhou que o javali lhe havia destroado o elmo. Diz ainda que haver dois conselhos e o que num for 
decidido pode no outro voltar-se contra vs e contra ele. Manda por isso saber se Vossa Senhoria, neste mesmo instante, querer pr-se a cavalo e a toda a brida 
rumar com ele ao norte para escusar o perigo que sua alma adivinha.
     HASTINGS - Vai, moo, vai. Volta junto de teu senhor. Diz-lhe que no tema os conselhos separados. Sua Senhoria e eu prprio estaremos presentes num deles, 
e no outro o meu bom amigo Catesby. Ali nenhuma coisa que nos toque poder acontecer sem que eu de contino dela tome conhecimento. Diz-lhe que seus temores so sem 
causa, sem razo. E quanto ao sonho, maravilho-me que ele seja to inocente que creia nos fingimentos de turvados sonhos. Fugir do javali antes que o javali nos 
siga, seria mover o javali a nos seguir, e a seguir-nos quando caar no intentava. Vai, diz a teu amo que se levante e venha ao meu encontro, e iremos os dois  
Torre, onde ele ver o javali fazer-nos gentil tratamento.
     MENSAGEIRO - Irei, senhor, e dir-lhe-ei o que me estais dizendo.
     (Sai. Entra Catesby)
     CATESBY - Muitos bons dia a meu nobre senhor.
     HASTINGS - Um bom dia, Catesby. Estais levantado muito cedo. Que novas, que novas haveis neste nosso instvel reino?
     CATESBY - Senhor, , em verdade, um munido de mudana, e creio que nunca quedo ser seno quando Ricardo cingir na fronte a palma do reino.
     HASTINGS - Como, cingir a palma? Queres dizer a coroa?
     CATESBY - Quero, meu bom senhor.
     HASTINGS - Mandarei cortar dos ombros esta coroa minha antes que veja a coroa to mal assentada. Mas imaginas tu que ele tem tal intento?
     CATESBY - Tem, por vida minha, e espera ter-vos do seu lado para a conquista dela. E por essa causa vos envia esta boa nova, que hoje mesmo os inimigos vossos, 
os parentes da Rainha, morrero em Pomfret.
     HASTINGS - Em verdade, tal nova no lamento, que eles meus adversrios foram sempre. Mas levantar eu minha voz por Ricardo para impedimento dos herdeiros do 
meu senhor, diretos descendentes, Deus sabe que o no farei, nem que por tal eu morra.
     CATESBY - Deus guarde Vossa Senhoria nesse amvel sentimento.
     HASTINGS - Mas rirei bem doze meses passados, por vivo estar e ver o trgico fim daqueles que me lanaram o dio do meu senhor. Bem, Catesby, quinze dias no 
viverei sem que eu do mundo expulse quem jamais em tal pensou.
     CATESBY -  coisa horrenda morrer, meu gracioso senhor, quando os homens no esto aparelhados e no esperam tal.
     HASTINGS - Oh, horrendo, horrendo! E assim  com Rivers, Vaughan, Grey; e assim ser com alguns outros homens que se pensam em tanta seguridade quanto tu e 
eu, que como sabes somos estimados pelo nobre Ricardo e por Buckingham.
     CATESBY - Ambos os prncipes vos tm em mui subida estima... ( parte) que na Ponte estimam ver vossa cabea exposta.
     HASTINGS - Eu sei, e bem o mereci. (Entra Stanley, Conde de Derby.) Vinde, vinde. Onde tendes a vossa lana, homem? Temeis o javali, e andais assim to desarmado?
     STANLEY - Senhor, bom dia. Bom dia, Catesby. Podeis gracejar, mas, pela Santssima Cruz, no me aprazem estes conselhos vrios, no me aprazem, no.
     HASTINGS - Meu senhor, tanto prezo minha vida como vs a vossa, e nunca foi ela, aqui declaro, to preciosa como para mim agora . Cuidais que se no considerasse 
nossa situao segura estaria triunfante como ora estou?
     STANLEY - Os fidalgos que esto em Pomfret, quando de Londres saram ledos iam, e cuidavam estar seguros, e no tinham na verdade razo para no confiar, mas 
vede como o dia logo ensombreceu. Turva-me esta sbita estocada de rancor, oxal prove ser covarde sem razo. Ento, vamos  Torre? O dia  chegado. Ento, ento, 
ouvi, sabeis que mais, senhor? So hoje decapitados os fidalgos de quem haveis falado.
     STANLEY - Por serem verdadeiros, das cabeas que tm so eles mais dignos do que dos chapus que usam muitos dos que os acusaram. Mas vinde, senhor, partamos.
     (Entra Hastings, Passavante.)
     HASTINGS - Ide adiante. Quedo-me a falar com este bom companheiro. (Saem Stanley e Catesby) Bom encontro, Hastings; como vai contigo o mundo?
     PASSAVANTE - Ainda melhor por Vossa Senhoria se dignar perguntar.
     HASTINGS - Digo-te, homem, tudo melhor comigo se conserta agora do que na derradeira vez que te encontrei neste lugar mesmo. Ia ento cativo para a Torre, por 
estmulo dos aliados da Rainha. Mas eu te digo agora e guarda-o para ti: so hoje executados esses inimigos, e eu em posio to subida como nunca tive!
     PASSAVANTE - Deus mantenha as coisas a vosso grado, senhor.
     HASTINGS - Gr merc te dou. Toma, bebe por mim. Atira-lhe a bolsa (Sai)
     PASSAVANTE - Agradeo a Vossa Merc.
     (Entra um padre.)
     PADRE - Bom encontro, meu senhor. Alegro-me em ver Vossa Merc.
     HASTINGS - Agradeo-te bom senhor D. Joo, de todo o meu corao. Ainda vos sou devedor de vosso ltimo servio. Voltai no prximo sbado e eu prmio vos darei. 
Diz-lhe qualquer coisa ao ouvido
     (Entra Buckingham.)
     PADRE - Esperarei por Vossa Senhoria. (Sai o padre)
     BUCKINGHAM - Qu, praticando com um padre, senhor Camareiro? Vossos amigos em Pomfret, esses bem necessitam de padre; Vossa Honra no ter necessidade de se 
confessar!
     HASTINGS - Por minha f, quando encontrei este santo homem lembrei-me dos homens de quem me falais. Ento, ides  Torre?
     BUCKINGHAM - Vou, meu senhor, mas por l no me posso eu alongar. De l tornarei eu antes de Vossa Senhoria.
     HASTINGS - E possvel, sim, pois l me quedarei para o jantar.
     BUCKINGHAM ( parte) - E para a ceia tambm, embora ainda o no saibais. Vinde - vamos?
     HASTINGS - Eu vos acompanho, senhor.
     (Saem)

      
Cena III
      
(Entra o senhor D. Ricardo de Ratcliffe, com alabardeiros, que conduzem os nobres Rivers, Grey e Vaughan para serem executados em Pomfret.)
      
     RATCLIFFE - Vinde, trazei os cativos.
     RIVERS - Senhor D. Ricardo de Ratcliffe permite que te diga: vais ver hoje um sdito morrer pela verdade, pelo dever e pela lealdade.
     GREY - Deus guarde o Prncipe do nefasto bando que vs sois! Sois uma companhia de malditas sanguessugas.
     VAUGHAN - Est vivo quem um dia em alta grita lamentar tudo isto.
     RATCLIFFE - Depressa,  chegado o limite de vossas vidas.
     RIVERS -  Pomfret, Pomfret!  tu, masmorra sanguinosa, fatal e pressaga para nobres pares! Dentro do espao criminoso dos teus muros foi Ricardo II assassinado. 
E para maior vergonha do teu lugar terrfico, damos-te a beber do nosso inocente sangue.
     GREY - Caiu fera sobre nossas cabeas a maldio de Margarida quando a lanou sobre Hastings, sobre vs e sobre mim, por termos visto Ricardo quando apunhalou 
seu filho.
     RIVERS - Ento amaldioou Ricardo, ento amaldioou Buckingham, ento amaldioou Hastings. , lembrai-Vos, Deus, de ouvir a sua prece por eles, como agora por 
ns e pela minha irm e por seus rgios filhos. Contentai-vos, Senhor, to-s do nosso sangue leal, que, como sabeis, vai ser sem justia derramado.
     RATCLIFFE - Depressa,  chegada a hora da morte.
     RIVERS - Vinde, Grey, vinde Vaughan, abracemo-nos. Adeus, at que no cu nos encontremos.
     (Saem)

      
Cena IV
      
(Entram Buckingham, Stanley, Conde de Derby, Hastings, o Bispo de Ely, Norfolk, Ratcliffe, Lovell e outros a uma mesa.)
      
     HASTINGS - Pois bem, nobres pares, aqui nos encontramos para sobre a coroao determinarmos. Em nome de Deus, falai: qual ser do rei o dia?
     BUCKINGHAM - Est tudo aparelhado para a cerimnia real?
     STANLEY - Est, e falta s determinar o dia.
     ELY - Amanh, ento, cuido ser dia feliz.
     BUCKINGHAM - Quem conhece o pensamento do Protector? Quem est mais prximo do nobre Duque?
     ELY - Vossa Graa, cuidamos, ser quem mais depressa conhecer seu parecer.
     BUCKINGHAM - Os restos sabemos um do outro. Quanto a nossos coraes, no sabe ele mais do meu do que eu dos vossos, ou eu do dele, senhor, ou vs do meu. Senhor 
Hastings, vs e ele, sois amigos prximos. Agradecido estou a Sua Graa, eu sei que ele bem me quer, mas quanto aos seus intentos sobre a coroao nenhuma coisa 
hei perguntado, nem ele me confiou o que neste caso te causaria prazer. Mas vs, meus nobres senhores, podeis assinalar o dia. E eu em nome do Duque levantarei minha 
voz, o que, cuido, de boa feio ele aceitar.
     (Entra Ricardo.)
     ELY - Em azado momento ali vem o prprio Duque.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Meus nobres senhores, e primos todos, bom dia. Dormi em excesso, mas cuido que minha ausncia no ter feito retardar algum 
caso grave que em minha presena podia ter sido concludo.
     BUCKINGHAM - Se no houvsseis entrado a tempo, senhor, D. Guilherme, senhor de Hastings, teria tomado vossa parte, quero dizer, teria sido a vossa voz sobre 
a coroao do rei.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Afora o meu senhor de Hastings ningum tal ousar podia. Sua Senhoria conhece-me bem, e tem por mim grande afeio. Senhor de 
Ely, quando pela derradeira vez em Holborn estive vi belas amoras no vosso quintal. Peo-vos, mandai buscar algumas.
     ELY - Cus, e assim farei senhor meu, de todo o corao. (Sai)
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Primo de Buckingham, uma palavra s. Catesby inquiriu Hastings sobre o nosso caso e encontra firmeza tal no obstinado fidalgo 
que prefere a cabea perder, mais que consentir que o filho de seu senhor (como com acatamento diz) perca de Inglaterra o real trono.
     BUCKINGHAM - Apartai-vos por um pouco. Irei ao vosso encontro.
     (Saem Ricardo e Buckingham)
     STANLEY - Ainda no determinamos este dia triunfal. Amanh, em meu parecer,  cedo em demasia porque eu prprio no estou to bem aparelhado como estaria se 
fosse mais retardado o dia.
     (Entra o Bispo de Ely.)
     ELY - Onde est meu senhor, o Duque de Gloucester? Mandei buscar estas amoras que ele queria.
     HASTINGS - Hoje tem Sua Graa ledo e doce semblante. Ter em mente algum pensamento que lhe apraz para dar os bons-dias com nimo tal. Cuido no haver homem 
algum na cristandade que menos do que ele seu amor ou seu dio saiba esconder, que pelo rosto se lhe conhece num pronto o corao.
     STANLEY - Que haveis de seu corao entendido no seu rosto da alegria que hoje h manifestado?
     HASTINGS - Cus, que no sente ofensa de homem algum aqui presente, porque, se sentisse, seu semblante o mostraria.
     STANLEY - Rogo a Deus que no, vos digo.
     (Entram Ricardo e Buckingham.)
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Peo-vos me digais o que merecem os que urdem minha morte em teias demonacas de negra magia, e fizeram triunfar contra o meu 
corpo os seus feitios malditos.
     HASTINGS - A grande estima que por Vossa Graa tenho, meu senhor, faz-me ser quem primeiro nesta nobre assemblia condene os culpados, sejam eles quem forem. 
Digo, senhor meu, merecem a morte.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Ento sejam vossos olhos testemunhas do seu maligno ato. Olhai como estou enfeitiado! Vede, meu brao semelha uma vara seca 
e queimada! E foi a mulher de Eduardo, essa bruxa monstruosa, de parelha com essa mundanal manceba, a prostituta Shore, que assim me assinalaram com seus feitios.
     HASTINGS - Se elas tal feito cometeram, meu senhor...
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Se? Tu, protetor dessa maldita meretriz, falas-me em "ses"! Traidor s tu. Fora com a sua cabea! Por So Paulo, juro que no 
jantarei hoje sem que tanto veja. Lovell e Ratcliffe, tratai do caso. Vs outros que afeio me tm, levantai-vos e segui-me.
     (Saem todos exceto Lovell e Ratcliffe e o senhor de Hastings)
     HASTINGS - Desgraada, desgraada Inglaterra! Mas no desgraado de mim, porque eu, inocente em demasia, podia t-lo evitado. Stanley sonhou que o javali lhe 
havia destrudo o elmo, e eu escarneci de tal e desdenhei fugir. Trs vezes hoje o meu cavalo aparelhado tropeou e se turvou ao ver a Torre, como se lhe pesasse 
trazer-me ao matadouro. Agora sim. Falta-me o padre que comigo falou. Repentido estou de ter dito ao passavante,  maneira de triunfo, que os meus inimigos morreriam 
hoje em Pomfret em carnificina sangrenta. E que eu prprio seguro me sentia de estar em graa e favor.  Margarida, Margarida, eis que tua pesada maldio atingiu 
a msera cabea do pobre Hastings.
     RATCLIFFE - Vinde, vinde, prestes. O Duque querer jantar. Fazei breve confisso. Ele deseja ver vossa cabea.  dos homens mortais a graa breve que ns mais 
procuramos do que de Deus a graa. Quem constri a esperana nos ares de vosso bom semblante vive como marinheiro brio no topo de um mastro, a cada instante pronto 
a despenhar-se nas profundezas fatais do mar profundo.
     LOVELL - Vinde, vinde, prestes. De nada valem lamentaes.  sanguinoso Ricardo! Msera Inglaterra, profetizo para ti o mais temeroso tempo que alguma vez poca 
alguma contemplou. Vinde, conduzi-me ao cadafalso. Levai-lhe minha cabea. Os que de mim escarnecem em breve mortos sero.
     (Saem)

      
Cena V
      
(Entram Ricardo e Buckingham com armaduras ferrugentas, maravilhosamente feios.)
      
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - V, primo, podes tremer e de cor mudar, assassinar teu sopro a meio de uma palavra, e ento de novo comear, e voltar a parar, 
como se estivesses turvado e sandeu de terror?
     BUCKINGHAM - Ora, eu sei mudar-me em grande trgico. Falar e olhar para trs e espreitar por todos os lados, tremor e assustar-me com o bulir de uma palha, 
manifestando suspeio profunda. Olhares terrficos tenho-os a meu mando tal como sorrisos fingidos, e ambos como meus servidores prontos esto em qualquer tempo 
a ajudar minha manhas. Mas qu, Catesby foi-se?
     (Entram o Alcaide e Catesby)
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Foi, e olha, consigo vem o Alcaide.
     BUCKINGHAM - Senhor Alcaide...
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Olha a Ponte, alm!
     BUCKINGHAM - Ouvi, um tambor!
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Catesby, vigia as muralhas!
     (Sai Catesby)
     BUCKINGHAM - Senhor Alcaide, a razo por que mandamos...
     (Entram Lovell e Ratcliffe, com a cabea de Hastings.)
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Olha para trs! Defende-te, so inimigos!
     BUCKINGHAM - Que Deus e nossa inocncia nos defendam e nos guardem
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Calma-te, amigos so: Ratcliffe e Lovell.
     LOVELL - Eis a cabea daquele ignbil traidor, o perigoso e insuspeitado Hastings.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Tanta estima sentia por esse homem, que devo chorar. Cuidei que ele era a criatura mais simples e inocente, o cristo melhor 
que jamais na terra respirou, fiz dele meu livro onde minha alma gravava a histria de todos seus sigilosos pensamentos, de tal forma ele escondia seu vcio sob 
virtuoso aspecto, que, afora esta aparente e clara culpa, falo de suas prticas com a mulher de Shore. Ele vivia longe de toda a suspeio.
     BUCKINGHAM - Ora, ora, foi o traidor mais fingido e disfarado. Podeis imaginar, ou quase crer, que, se no fora por grande dita, no viveramos hoje para 
vos contar que este sutil traidor tinha forjado hoje durante o conselho matar-me a mim e a meu bom senhor de Gloucester?
     ALCAIDE - Isso fez ele?
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Qu, cuidais que somos turcos ou infiis? Ou que iramos, contra o que dita a lei, decidir assim prontamente sobre a morte 
do ruim vilo, no fora o perigo extremo da questo, a paz de Inglaterra, e a seguridade de nossas pessoas, obrigar-nos a essa execuo?
     ALCAIDE - Que os cus vos abenoem! Ele mereceu a morte. E vs, senhores, haveis ambos procedido bem, para assim afastardes traidores de tais intentos
     BUCKINGHAM - Nunca de suas mos esperei boas aes depois que ele esteve em companhia da Senhora Shore. Porm no tnhamos determinado que ele morresse antes 
de Vossa Senhoria chegar para presenciar seu fim... O que a pressa amvel destes amigos nossos no permitiu, posto que contra nossa inteno... Porque, meu senhor, 
gostaramos ns que tivsseis ouvido o traidor falar, e timidamente confessar a guisa e a finalidade de sua traio, para que pudsseis contar aos cidados, que 
por acaso possam ter desconfiana de ns por causa sua e chorar sua morte.
     ALCAIDE - Mas, meu bom senhor, as palavras de Vossa Graa serviro da mesma guisa que se eu o vira e ouvira falar; e, no tenhais dvida, mui nobres prncipes, 
que darei conhecimento a nossos leais cidados de todos vossos justos cometimentos nesta causa.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - E para tal quisemos que viesse aqui Vossa Senhoria evitando assim maus juzos do maldizente mundo.
     BUCKINGHAM - Mas, j que haveis chegado tarde demais para nosso intento, testemunhai ento aquilo que ouvis termos intentado. E assim, meu bom Alcaide, nos 
despedimos.
     (Sai o Alcaide)
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Ide aps ele, ide, primo Buckingham: o Alcaide dirige-se, apressurado ao Guildhall. Ali, na ocasio mais conforme, provai que 
so bastardos os filhos de Eduardo; dizei-lhes que Eduardo matou um cidado s por este dizer que faria de seu filho o herdeiro da Coroa - tendo apenas em mente 
sua taberna, que por tal insgnia ter da coroa era chamada. E mais, falai da sua luxria, e de seu bestial apetite na busca dos prazeres, que se estendia a servos, 
filhas, mulheres, por todo o lado que seu incendido olhar e corao selvagem sem regra cobiassem fazer presa. Bem, e se for mister, em vossa prtica rondai minha 
pessoa: dizei-lhes que quando minha me prenhe ficou desse insacivel Eduardo, pelejava o nobre York, meu nobre pai, em Frana, e ainda que, pelo contar do tempo, 
ele concluiu no ser o progenitor, o que bem se manifestou no prprio semblante, que em nada semelhava ao Duque, meu pai... Porm, falai nisto com mesura, como se 
o caso remoto fosse, porque, meu senhor, sabeis que  viva minha me.
     BUCKINGHAM - No duvideis, meu senhor. Orador serei como se fora meu o prmio de ouro que alcanar intento. E assim, senhor meu, adeus.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Se tanto conseguirdes, levai-os ao Castelo de Baynard, onde me encontrareis em boa companhia Entre reverendos padres e doutos 
bispos.
     BUCKINGHAM - Parto-me, e entre as trs e as quatro horas esperais pelas novas que o Guildhall dar. (Sai)
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Vai, Lovell, a toda a pressa junto do doutor Shaa. (Para Ratcliffe) E tu junto de Frei Penker; diz a ambos que antes que passe 
uma hora me procurem no Castelo de Baynard. (Saem Ratcliffe e Lovell) Irei agora ordenar secretamente que faam desaparecer esses crianas de Clarence, e dar conhecimento 
que em tempo algum a ningum  permitido chegar junto a esses prncipes. (Sai)

      
Cena VI
      
(Entra um escrivo com um papel na mo.)
      
     ESCRIVO - Eis a condenao do bom senhor de Hastings escrita em grandes letras na melhor escritura para que hoje possa ser lida em Saint Paul. E notai a harmonia 
da sua ordenao: onze horas demorei eu a escrev-la, entregue que me foi ontem  noite por Catesby; o original demorou o mesmo tempo a compor, e contudo faz agora 
cinco horas vivia Hastings inocente, sem julgamento, livre, em liberdade. Que bom mundo, este! Quem to bruto  que no veja ardil to manifesto? Porm, quem to 
ousado  que diga que o est vendo? O mundo  mau, todas as coisas acabam no mal quando tais nefastos efeitos se tm de guardar no pensamento. (Sai)

      
Cena VII
      
(Entram Ricardo e Buckingham por portas diferentes.)
      
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Ento? Ento? Que dizem os cidados?
     BUCKINGHAM - Bem, pela Santssima Me de Nosso Senhor, os cidados mudos esto e no dizem palavra alguma.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Haveis dito que os filhos de Eduardo eram bastardos?
     BUCKINGHAM - Disse, e seu contrato com a senhora de Lucy, e seu outro contrato em Frana, por embaixador, a voracidade insacivel de seu desejo, e suas violncias 
sobre as mulheres da cidade, sua tirania por coisas sem valia, ele prprio ser bastardo, pois concebido foi estando vosso pai em Frana, e ainda seu semblante no 
semelhar ao Duque. Entretanto, mencionei vossas feies, que de vosso pai so fiel retrato, no s na aparncia como na nobreza do esprito, apresentei todas vossas 
vitrias na Esccia, Vossa disciplina na guerra, vossa cincia na paz, Vossa generosidade, virtude e no manchada humildade. De fato, nada omiti que pudesse favorecer 
Vosso intento, de tudo falei e a tudo aludi em meu discurso. E quando minha eloqncia chegou ao termo mandei os que amavam o bem de seu pas bradar: "Viva Ricardo, 
Rei de Inglaterra!"
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - E eles bradaram?
     BUCKINGHAM - No, assim Deus me ajude, no disseram palavra alguma, mas como esttuas mudas ou pedras que respiram olharam-se uns aos outros e plidos de morte 
se tornaram. Pelo que eu, nisto vendo, lhes fiz grande reprimenda. E perguntei ao Alcaide o sentido de to obstinado silncio. Sua resposta foi que o povo no era 
costumado a que, afora o arauto, algum para ele falasse. Pedi-lhe ento que repetisse o meu discurso: "isto diz o Duque; o Duque isto afirmou"... E nada disse de 
sua vontade. Quando chegou ao termo, alguns dos meus sequazes, no extremo da sala, arremessaram seus chapus e algumas dez vozes bradaram "Viva El-Rei Ricardo!" 
Tirei ento proveito destes poucos: "graas amigos e gentis cidados", disse eu, "este geral aplauso e estes alegres brados vossa cincia manifestam e vossa afeio 
por Ricardo." E neste ponto parei e fui-me dali.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Que, cepos mudos eram eles? No ho querido falar! O Alcaide e sua confraria no querem vir aqui?
     BUCKINGHAM - O Alcaide  aqui por perto. Fingi temor. No deixeis que vos fale seno depois de forte instncia. E no vos esquea ter na mo um livro de oraes, 
e permanecer entre dois padres, meu bom senhor, que sobre tal farei eu santo sermo. E no vos deixeis facilmente vencer por nossos rogos, fazei de donzela: muito 
embora digais no, concedei.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Eu me vou, e se em nome deles intercederdes to bem como eu por minha parte te saberei dizer no, sem dvida levaremos este 
caso a seu bom termo.
     BUCKINGHAM - Ide, ide para a galeria, o Alcaide bate  porta. (Sai Ricardo) (Entram o Alcaide e cidados) Sede bem-vindo, meu senhor. Aqui me encontro  espera. 
Cuido que o Duque no quer receber ningum. (Entra Catesby em cima.) Ento, Catesby, que diz vosso senhor a meu pedido?
     CATESBY - Ele pede a Vossa Graa, meu nobre senhor, que amanh o procure, ou no dia seguinte. Ele est a dentro em companhia de dois reverendos padres, divinamente 
entregue  meditao, e splica mundana nunca o levaria a afastar-se daquele santo exerccio.
     BUCKINGHAM - Volta, bom Catesby, junto do gracioso Duque: diz-lhe que eu prprio, o Alcaide e os homens-bons, acerca de assuntos graves, de casos de maior urgncia, 
to importantes como o bem de todos ns, aqui viemos para ter conversao com Sua Graa.
     CATESBY - Isso mesmo lhe direi de imediato. (Sai)
     BUCKINGHAM - Ah! Ah!, senhor meu, este prncipe no  um Eduardo, no se reclina em morno leito de amor, mas, posto de joelhos, medita, no se apraz com uma 
parelha de cortess, mas medita em companhia de dois venerandos padres, no dorme, para engordar seu corpo ocioso, mas reza, para enriquecer sua alma atenta. Feliz 
seria a Inglaterra se to virtuoso Prncipe aceitasse sobre si a sua soberania. Mas temo que a tanto no o saibamos mover.
     ALCAIDE - Cus, Deus no permita que Sua Graa nos diga "no"!
     BUCKINGHAM - Temo que sim. (Entra Catesby.) Ali vem de novo Catesby. Ento, Catesby, que diz Sua Graa?
     CATESBY - Pergunta com que fim haveis chamado tais hordas de cidados que a ele se dirigem, do caso tudo ignorando Sua Graa. Teme, senhor, que vossos intentos 
no lhe sejam de feio.
     BUCKINGHAM - Lamento que meu nobre primo possa suspeitar de que no lhe sejam de feio os meus intentos. Pelos cus, dele nos acercamos em perfeito amor. E 
assim, ide de novo e contai a Sua Graa. (Sai Catesby) Quando homens crentes, devotos e santos esto em suas preces, delas  difcil arranc-los, to doce  a fervorosa 
contemplao.
     (Entra Ricardo, no alto, entre dois bispos com Catesby.)
     ALCAIDE - Vede onde se tem Sua Graa, entre dois clrigos!
     BUCKINGHAM - Duas escoras de virtude para um Prncipe cristo, que o impedem da queda na vaidade, e vede, um livro de oraes entre as mos... Veros ornamentos 
com que se conhece um homem santo. Afamado Pantageneta, mui gracioso Prncipe, presta ao que te pedimos ouvidos favorveis e perdoa-nos esta suspenso de tua devoo 
e de teu mui cristo fervor.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Meu senhor, escusado  tal pedido de desculpa. Perdo imploro a Vossa Graa, se, no ardor com que servia ao meu Deus, retardei 
a visita de meus amigos. Mas, deixemos isso, que apraz a Vossa Graa?
     BUCKINGHAM - O mesmo que, espero, apraz a Deus l no alto, e a todos os homens bons desta ilha sem governo.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Suspeito ter cometido uma ofensa, que parece desagradar aos olhos da cidade. E que aqui vindes repreender meu erro.
     BUCKINGHAM - Assim , meu senhor: e provera a Vossa Graa emendar com os nossos pedidos vosso erro.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Sem tal fazer, como poderia viver em terra crist?
     BUCKINGHAM - Sabei ento, erro vosso  recusar o lugar supremo, o majestoso trono, o ofcio coroado de vossos maiores, o estado que deveis a vossa fortuna e 
a vosso nascimento,  glria hereditria de vossa Casa Real, em favor da corrupo de um ramo maculado, enquanto na doura de vossos sonolentos pensamentos, donde 
vos acordamos para o bem de nossa terra, a nobre ilha reclama seus veros membros com a face esfacelada por cicatrizes de infmia, com o tronco real enxertado de 
ignbeis plantas, e quase perdendo o p no abismo devorador do negro esquecimento e do profundo nada. Para tanto prevenir, do corao rogamos a vossa graciosa pessoa 
que tomeis vs o crrego e o rgio regimento desta terra vossa, no como Protetor, intendente ou substituto, ou baixo servidor para proveito de outrem, mas por direito 
de linhagem de sangue para sangue, vosso direito de nascimento, vosso imprio, vossos bens.  para tanto que, consertado com os cidados, vossos mui devotos e leais 
amigos, e por sua veemente instigao, venho nesta justa causa demover Vossa Graa.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - No sei dizer o que melhor responde a meu estado ou a vossa condio. Se em silncio apartar-me, ou se amargamente contra vs 
falar, se resposta no vos der, porventura podereis cuidar que minha ambio, a lngua me prendendo, sem resposta dar, acedera a carregar o dourado jugo da soberania 
que vs amavelmente sobre mim aqui quereis impor. Se vos reprovar por esta vossa petio, assim condimentada pelo amor que por mim tendes, ento, por outro lado, 
reprovava meus amigos. Portanto, para falar, e evitar o primeiro caso, e, ao falar, no segundo no cair, eu deste modo vos dou minha resposta final: merece vosso 
amor a minha gratido, mas meu desmerecimento recusa, por imerecida, vossa subida instncia. Primeiro, se todos os embargos estivessem removidos, e fora plano o 
meu caminho para o trono, por devida herana e por linhagem, ainda assim,  tal a pobreza de meu esprito, tantos e tamanhos so os meus defeitos, que antes quisera 
esconder-me de minha grandeza, eu frgil barca para cometer alteroso mar, que desejar em minha grandeza ser escondido e no vapor da minha glria sufocado. Mas, Deus 
seja louvado, de mim no careceis e eu de muito careo para ajuda vos dar, se dela carecerdes. A rvore rgia nos deixou um rgio fruto, o qual, sazonado pelas horas 
do tempo veloz, bem se ajustar ao majestoso assento, e, decerto, nos tornar felizes com o seu reinado. Sobre ele deponho o que vs sobre mim depor quisestes: o 
direito e a fortuna de sua estrela feliz, e Deus no permita que eu lhos furte.
     BUCKINGHAM - Meu senhor, isto prova conscincia em Vossa Graa. Mas os motivos so ligeiros e banais, bem consideradas as circunstncias todas. Dizeis que Eduardo 
 filho de vosso irmo. Tambm ns o dizemos. Mas no da mulher de Eduardo, porque primeiro foi comprometido com a senhora de Lucy. Vossa me  viva testemunha desse 
voto e por procurao casou depois com Bona, irm do rei de Frana. Repudiadas ambas, uma pobre mulher, que peties fazia, me cuidadosa de muitos filhos, viva 
triste e de beleza gasta, no entardecer j de seus melhores dias, conquistou e comprou seu libertino olhar, seduziu as alturas de seu estado at  decadncia vil 
e infame bigamia. Dela, nesse leito ilegal, teve ele este Eduardo, a quem por cortesia damos o nome de Prncipe. Mais amargamente podia eu protestar, no fora impor 
discreto limite a minha lngua por respeito a pessoas ainda em vida. Meu bom senhor, tomai pois sobre vossa real pessoa este benefcio da dignidade que vos ofertamos. 
Se no for para nos tornar felizes, e conosco o pas todo, ser para arrancar vossa nobre linhagem da corrupo de tempos aviltantes para um curso reto e verdadeiro.
     ALCAIDE - Aceitai, meu bom senhor. Vossos cidados assim vos rogam.
     BUCKINGHAM - No recuseis, poderoso senhor, o amor que assim vos ofertamos.
     CATESBY - Oh, fazei-os felizes, acedei a seu legtimo pedido.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Ai de mim, porque me pondes tamanho peso em cima? No sou feito para o trono e a majestade. Peo-vos, no mo tomeis a mal. 
No posso, nem irei, a vs ceder.
     BUCKINGHAM - Se recusardes, pois por amor e devoo Sois contrrio a depor o infante, filho de vosso irmo. Como bem conhecemos a brandura de vosso corao, 
e a disposio gentil, amvel e feminil que bem notamos com respeito a vossos parentes e que  de fato igual  que usais para todos os estados, sabei contudo que, 
quer aceiteis ou no a nossa petio, o filho de vosso irmo nunca ser nosso Rei, antes um outro assentaremos no trono para desgraa e queda de vossa Casa e com 
esta deciso ns vos deixamos. Vinde, cidados. Por Deus, no peo mais!
     RICARDO III (Duque de Gloucester) - Oh, no praguejeis, meu senhor de Buckingham!
     (Saem Buckingham, Alcaide e cidados)
     CATESBY - Chamai-os de novo, doce Prncipe. Aceitai seu pedido. Se o recusardes, todo o pas lamentar.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Quereis forar-me a um mundo de tormentos? Chamai-os de novo. No sou feito de pedra, e me moverei a vossas amveis diligncias, 
posto que contra minha conscincia e minha alma seja. (Entram Buckingham e o resto) Primo de Buckingham, e vs homens sbios e graves. Pois quereis afivelar-me a 
fortuna sobre o dorso para que lhe suporte o fardo queira eu ou no, devo ser paciente e suportar o peso. Mas se por acaso negro escndalo ou imunda censura chegar 
no seguimento de vossa imposio, vossa coao por si s me libertar de qualquer sinal e mancha impura, porque Deus sabe, e vs talvez vereis em parte, quo longe 
estou de tal coisa desejar.
     ALCAIDE - Deus abenoe Vossa Graa. Assim o vemos e assim o diremos.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Em o dizendo, direis s a verdade.
     BUCKINGHAM - Eu vos sado ento com este real apelido: viva Ricardo, digno Rei de Inglaterra!
     TODOS - Amem.
     BUCKINGHAM - Apraz-vos, senhor, amanh ser coroado?
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Quando a vs aprouver, j que assim o quereis.
     BUCKINGHAM - Esperaremos amanh por Vossa Graa. E mui alegremente vos dizemos adeus.
     RICARDO  (Duque de Gloucester) - Vamos, tomemos a nosso santo trabalho. Adeus, meu primo, adeus, gentis amigos.
     (Saem)

      
ATO IV
Cena I
      
(Entram a Rainha Isabel, a Duquesa de York, o Marqus de Dorset, por uma porta; Ana, Duquesa de Gloucester, por outra com a filha de Clarence.)
      
     DUQUESA DE YORK - Quem vem ao nosso encontro? Minha sobrinha Plantageneta trazida por mo de sua amvel tia de Gloucester. Por minha f, vai em direo da Torre, 
em misso de puro amor, saudar o tenro Prncipe. Filha, bom encontro  este.
     ANA - Conceda Deus a Vossas Graas tempo contente e ledo neste dia.
     ISABEL - Tanto como a ti, boa irm. Onde ides?
     ANA - No mais longe do que a Torre, e, cuido eu, com o mesmo intento que a vs vos leva, l saudar os gentis prncipes.
     ISABEL - Boa irm, eu vos agradeo. Em companhia entraremos. (Entra Brackenbury.) E em boa hora aqui vem o Tenente. Senhor Tenente, se mo permitis, peo me 
digais: como vai o Prncipe e o meu jovem filho York?
     BRACKENBURY - Muito bem, senhora querida. Pacientai, no posso permitir vossa visita, o Rei com rigor ordenou o contrrio.
     ISABEL - O Rei? Quem ?
     BRACKENBURY - Falo do senhor Protetor.
     ISABEL - Que o Senhor o defenda desse ttulo real! Ele imps fronteiras entre mim e o amor que eles a mim tm. Sou sua me. Quem poder deles apartar-me?
     DUQUESA DE YORK - Sou a me de seu pai. Quero v-los.
     ANA - Por lei sou sua tia, sua me por amor leva-me a v-los. Eu suportarei a tua culpa, e te libertarei do encargo, o risco ser meu.
     BRACKENBURY - Senhora, no, tal no posso permitir. Fiz juramento, e por tal me perdoeis.
     (Entra Stanley, Conde de Derby)
     STANLEY - Passe uma hora s, senhoras, e se vos encontrar saudarei Vossa Graa de York como me e veneranda testemunha de duas formosas rainhas. (Para Ana) 
Vinde, senhora, deveis ir sem detena a Westminster, onde sereis coroada real Rainha de Ricardo.
     ISABEL - Ah, cortai-me o corpete para que meu dolorido corao ganhe espao para bater, ou seno eu desfaleo a estas novas mortais.
     ANA - Cruel mensagem! Oh, enojadas novas!
     DORSET - Alento, minha me. Como passa Vossa Graa?
     ISABEL -  Dorset, comigo no faleis, fuge. A morte e destruio ladram-te s canelas. O nome da tua me  funesto para os filhos. Se queres vencer a morte, 
vai, cruza os mares e vai viver com Richmond, longe do alcance do inferno. Vai, esconde-te, esconde-te longe deste matadouro ou tornars maior o nmero dos mortos 
e me fars morrer como escrava da maldio de Margarida: nem me, nem esposa, nem rainha reconhecida de Inglaterra.
     STANLEY -  vosso conselho, senhora, prenhe de sbia inquietude. (Para Dorset) Tirai prestes a vantagem destas horas. Levareis cartas minhas, a meu filho em 
vosso favor, para que v ao vosso encontro no caminho. No vos tardeis com demoras fora de razo.
     DUQUESA DE YORK -  vento de misria que o mal desparze!  maldito ventre meu, leito de morte! Deste ao mundo uma serpente cujo olhar, a que ningum pode fugir, 
 assassino.
     STANLEY - Vinde, senhora, vinde. Fui mandado a toda a pressa.
     ANA - E eu irei com toda a minha malquerena. Oh provera a Deus que o crculo de ouro que deve cingir minha fronte fora incendido em brasa para me queimar at 
o crebro. Ungida eu seja com mortal veneno, e morra antes que algum possa dizer: viva a Rainha.
     ISABEL - Vai, vai, pobre de ti, coitada! Inveja no tenho  tua glria. Para nutrires meu humor, no te desejes mal.
     ANA - No? Porqu? Quando aquele que ora  meu esposo veio ao meu encontro, acompanhava eu o corpo de Henrique, quando ele de suas mos mal lavara ainda o sangue 
derramado por meu outro anjo e marido meu, e desse santo querido que eu em pranto acompanhava, Oh, quando, vos digo, olhei o rosto de Ricardo, foi este meu desejo: 
"Maldito sejas", disse eu, "por me tornares, to nova, em viva to velha, e quando te casares que a dor te assombre o leito. E que tua mulher - se alguma por loucura 
o for - seja mais msera por tua vida do que tu me fizeste pela morte de meu querido senhor". Coitada de mim, antes que possa aqui repetir a mesma maldio, em tempo 
to pouco, meu corao de mulher deixou-se rudemente cativar por suas palavras de mel, e mudei-me em objeto da maldio de minha prpria alma, o que, desde ento, 
todo o repouso retirou aos olhos meus, pois em seu leito uma hora sequer jamais gozei do sono o dourado orvalho, sempre acordava com seus temerosos sonhos. E mais, 
ele tem-me dio por meu pai Yarwick, e breve, no duvido, se livrar de mim.
     ISABEL - Pobre corao, adieu. Lamento teus queixumes.
     ANA - No mais que em minha alma lamento eu os vossos.
     DORSET - Adeus,  tu que dolorosamente a glria agasalhas.
     ANA - Adieu, pobre alma que dela te despedes.
     DUQUESA DE YORK - (Para Dorset) Vai para junto de Richmond, e que te guie a boa sorte. (Para Ana) Vai para junto de Ricardo e que te guardem anjos bons. (Para 
Isabel) Vai para o santurio, e que te ocupem pensamentos bons. Eu vou para a minha sepultura, onde a paz e a quietude comigo moraro. Oitenta anos de amargura j 
eu vi, e cada hora de alegria despedaada por uma semana de dor.
     ISABEL - Ficai, olhai ainda comigo a Torre. Vs, pedras antigas, tende piedade desses tenros infantes que a inveja encarcerou dentro de vossos muros, rude bero 
para to lindos meninos, ama rude e esfarrapada, velha e severa companhia para tenros prncipes, dai bom tratamento a meus filhos. E assim a louca dor diz adeus 
a vossas pedras.
     Saem

      
Cena II
      
(As trombetas anunciam um conselho. Entra Ricardo em grande pompa, coroado; Buckingham, Catesby Ratcliffe, Lovell com outros nobres e um pajem)
      
     RICARDO III (Rei) - Afastai-vos todos. Primo de Buckingham!
     BUCKINGHAM - Meu gracioso soberano!
     RICARDO III (Rei) - D-me a tua mo. (Sobe ao trono. Soam trombetas) Aqui to alto, por conselho teu e teu auxlio, se assenta o Rei Ricardo. Mas vestiremos 
estas glrias por um dia ou sero duradouras e nelas prazer teremos?
     BUCKINGHAM - Agora vivas esto, e oxal para sempre durem!
     RICARDO III (Rei) - Ah, Buckingham, eu fao agora de pedra de toque para provar se s de verdade ouro de lei. Est vivo o jovem Eduardo, imagina agora o que 
eu dizer queria.
     BUCKINGHAM - Continuai, meu estimado senhor.
     RICARDO III (Rei) - Ora, Buckingham, digo que queria ser Rei.
     BUCKINGHAM - Ora, mas vs sois, meu senhor trs vezes afamado.
     RICARDO III (Rei) - H, Rei sou? Pois sim, mas est vivo Eduardo.
     BUCKINGHAM - Em verdade, nobre Prncipe.
     RICARDO III (Rei) - Oh seguimento amargo! Que ainda viva Eduardo em verdade, nobre Prncipe! Primo, no costumavas ter pouco entendimento. Queres que seja claro? 
Quero os bastardos mortos. E quero isto feito j, depressa. Que dizes agora? Fala prestes, s breve.
     BUCKINGHAM - Vossa Graa pode fazer o que lhe aprouver.
     RICARDO III (Rei) - Tss, tss, s gelo, todo. Tua amizade arrefece. Diz, tenho teu consentimento para a sua morte?
     BUCKINGHAM - Dai-me um tempo para respirar, uma pausa, querido senhor, antes de sobre isto meu juzo manifestar. Em breve aqui vos darei minha resposta. (Sai)
     CATESBY - O Rei est irado. Vede, o lbio mordendo est.
     RICARDO III (Rei) ( parte) - Eu conversarei com parvos de duro entendimento e moos sem conscincia. Por mim no so os que me olham com olhos prudentes. O 
ilustre Buckingham torna-se cauteloso. Moo!
     PAJEM - Senhor?
     RICARDO III (Rei) - Conheces algum que o ouro corruptor possa tentar a sigiloso feito de morte?
     PAJEM - Conheo um fidalgo sem contentamento cujas humildes posses no se concertam com seu esprito altivo. O ouro valeria para ele vinte oradores, e por certo 
o tentar seja ao que for.
     RICARDO III (Rei) - Qual  o seu nome?
     PAJEM - O seu nome, senhor meu,  Tyrrel.
     RICARDO III (Rei) - Conheo um pouco o homem. Vai cham-lo aqui. (Sai o pajem) ( parte) O ponderado, engenhoso Buckingham no mais ser vizinho para meus conselhos. 
Tanto comigo andou sem se cansar e para agora para respirar! Bom, assim seja! (Entra Stanley, Conde de Derby) Ento, senhor de Stanley, que novas h?
     STANLEY - Sabei, meu amvel senhor, que o Marqus de Dorset, segundo ouvi, fugiu ao encontro de Richmond para as partes em que ele mora.
     RICARDO III (Rei) - Vem c, Catesby. Lana o rumor de que Ana, minha mulher, est com gravidade enferma. Ordenarei que ela seja mantida cativa. Descobre por 
a um qualquer pobre e msero fidalgo que eu possa j casar com a filha de Clarence... O mancebo parvo  e dele no me receio. Olha, tu ests sonhando? Outra vez 
te digo, espalha por a que Ana, a minha Rainha, enferma  e quase morta. Vai, que me  foroso cortar todas as esperanas cujo crescimento me possa mal fazer. (Sai 
Catesby) E mister que case com a filha de meu irmo, ou ento tem meu reinado fundaes de vidro. Assassinar-lhe seus irmos, e despos-la depois... Modo incerto 
de ganhar! Mas estou de tal guisa imerso em sangue que pecado causar novo pecado. A chorosa piedade no tem morada nestes olhos. (Entra Tyrrel.) O teu nome  Tyrrel?
     TYRREL - Jaime Tyrrel, e o vosso mais obediente servidor.
     RICARDO III (Rei) - Deveras?
     TYRREL - Provai-me, meu gracioso senhor.
     RICARDO III (Rei) - Ousarias matar um amigo meu?
     TYRREL - Se tal vos aprouver. Mas antes queria matar dois inimigos.
     RICARDO III (Rei) - A os tens ento, dois grandes inimigos, do meu repouso adversrios e turvadores do meu doce sono.  deles que eu quereria que te ocupasses 
tu Tyrrel, falo dos bastardos na Torre.
     TYRREL - Dai-me maneira de chegar a eles, e cedo vos livrarei do temor que tendes deles.
     RICARDO III (Rei) - Cantas msica suave. Ouve, vem c, Tyrrel, toma este testemunho. Levanta-te e escuta bem. (Segreda-lhe ao ouvido) Mais no  que isto. Diz 
que feito est e eu te estimarei e por tal meu favorito sers. (Sai)
     TYRREL - Vou sem tardana concluir o caso.
     (Entra Buckingham.)
     BUCKINGHAM - Senhor meu, em meu pensamento ponderei a ltima questo sobre a qual me haveis sondado.
     RICARDO III (Rei) - Ora, deixai isso em paz. Dorset fugiu at junto de Richmond.
     BUCKINGHAM - Ouvi a nova, meu senhor.
     RICARDO III (Rei) - Stanley, ele  o filho de vossa mulher. Bem, cuidai nisso.
     BUCKINGHAM - Senhor meu, reclamo o prmio, que por promessa me  devido. E pelo qual haveis penhorado vossa honra e vossa f: o condado de Hereford e todos 
os pertences que haveis prometido eu iria possuir.
     RICARDO III (Rei) - Stanley, vigiai vossa mulher. Se ela enviar cartas a Richmond, vs respondereis por isso.
     BUCKINGHAM - Que diz Vossa Alteza a meu justo pedido?
     RICARDO III (Rei) - Eu bem me lembro que Henrique VI profetizou que Richmond seria rei, quando Richmond era uma criana impertinente. Um rei!... talvez... talvez...
     BUCKINGHAM - Senhor meu!
     RICARDO III (Rei) - Como foi que no pode o profeta quele tempo dizer-me, a mim que estava l, que eu o mataria?
     BUCKINGHAM - Senhor meu, vossa promessa do condado...
     RICARDO III (Rei) - Richmond! Quando pela derradeira vez estive em Exeter, o Alcaide por cortesia me mostrou o castelo, e chamou-lhe Rougemont, e a esse nome 
tremi porque um bardo da Irlanda me disse uma vez que eu no viveria largo tempo depois de haver visto Richmond.
     BUCKINGHAM - Senhor meu...
     RICARDO III (Rei) - Sim... Que hora ?
     BUCKINGHAM - Ouso lembrar a Vossa Graa a promessa que me fez.
     RICARDO III (Rei) - Bem, mas que hora ?
     BUCKINGHAM - Bateram as dez.
     RICARDO III (Rei) - Bom, deixa bater.
     BUCKINGHAM - Por que deixar bater?
     RICARDO III (Rei) - Porque, como mecanismo de relgio, bate compasso entre teu pedido e minha meditao. No estou hoje em humor de dar.
     BUCKINGHAM - Ser que vos apraz dar resposta a meu pedido?
     RICARDO III (Rei) - Aborreces-me, no estou eu nesse humor. (Sai seguido por todos, exceto Buckingham)
     BUCKINGHAM - Isso  assim? Paga ele meu subido servio com tamanho desdm? Foi para tal que o fiz Rei? Oh, deixai-me pensar em Hastings e partirei para Brecknock 
enquanto ainda est sobre os ombros a minha cabea ameaada. (Sai)

      
Cena III
      
(Entra Tyrrel.)
      
     TYRREL - Cumprido est o tirnico e sangrento ato, o feito mais ingente de lamentvel massacre de que alguma vez esta terra foi culpada. Dighton e Forrest, 
que eu subornei para cometer esta obra de mpia carnificina, sendo embora carnvoros vilos, sanguinosos mastins, movidos de ternura e suave compaixo, como crianas 
choraram contando a triste histria de suas mortes. "Oh", disse Dighton, "assim repousavam os gentis meninos." "Assim, assim", disse Forrest, "um no outro enlaados 
em seus inocentes braos de alabastro. Seus lbios eram quatro rosas vermelhas no mesmo ramo, e no vero da sua beldade se beijavam um ao outro. Um livro de oraes 
sobre a almofada estava, que por instantes", disse Forrest, "quase mudou meu querer. Mas oh, o Demo." Aqui o ruim vilo parou, quando Dighton ainda disse: "Sufocamos 
a obra mais doce e mais perfeita que a natureza desde a primeira criao alguma vez formou!" Foram-se os dois com conscincia e com remorso de tal guisa que nem 
falar podiam, e por isso eu os deixei para trazer a nova ao sanguinoso Rei. (Entra o Rei Ricardo.) E ei-lo que ali vem. Sade, meu soberano senhor.
     RICARDO III (Rei) - Amvel Tyrrel, acharei felicidade em tuas novas?
     TYRREL - Se ter cumprido aquilo cujo cargo me haveis dado vos traz felicidade, sede ento feliz, porque feito est.
     RICARDO III (Rei) - Mas viste-los mortos?
     TYRREL - Vi, meu senhor.
     RICARDO III (Rei) - E enterrados, gentil Tyrrel?
     TYRREL - O capelo da Torre os enterrou, mas onde, para dizer a verdade, eu o no sei.
     RICARDO III (Rei) - Vai junto de mim, Tyrrel, logo depois da ceia. E ento me contars a sua morte com mincia. Em tanto, pensa como te poderei bem fazer e 
sejas tu o herdeiro de teu prprio desejo. Adeus, at ento.
     TYRREL - Humildemente me despeo. (Sai)
     RICARDO III (Rei) - O filho de Clarence em forte priso o pus, a filha a mesquinho casamento a destinei, os filhos de Eduardo dormem no seio de Abrao, e Ana, 
minha mulher, disse ao mundo boa noite. Agora, pois sei que o breto Richmond pretende a jovem Isabel, filha de meu irmo, e por esse lao olha com orgulho para 
a coroa, junto dela vou para com sucesso e alegria a cortejar.
     (Entra Ratcliffe.)
     RATCLIFFE - Meu senhor!
     RICARDO III (Rei) - Boas ou ms novas, que assim vens to pressuroso?
     RATCLIFFE - Ms novas, meu senhor. Morton tomou fuga para junto de Richmond, e Buckingham, sustentado pelos audazes galeses, est em guerra, e seu poder aumenta.
     RICARDO III (Rei) - Ely com Richmond me trazem mais inquietude do que Buckingham e suas tropas pressurosamente recrutadas. Vem, aprendi que a medrosa discusso 
 plmbea serva da escura tardana. A tardana comanda a misria impotente e vagarosa como o caracol. Seja ento a fogosa prontido a minha asa, Mercrio de Jpiter, 
arauto de um rei. Vai, chama foras. Meu escudo  meu conselho. Devemos ser breves, quando traidores desafiam  batalha.
     (Saem)

      
Cena IV
      
(Entra a velha Rainha Margarida.)
      
     MARGARIDA - Eis que a prosperidade comea a ser madura e a escorrer para dentro da boca podre da morte. Aqui destes confins com astcia espiei para ver a decadncia 
de meus inimigos. Testemunha sou de um prlogo terrvel, e vou para Frana, esperando que o seguimento provar ser to amargo, negro e trgico. (Entram a Duquesa 
de York e a Rainha Isabel.) Afasta-te, desgraada Margarida, quem vem l?
     ISABEL - Ah, meus pobres prncipes! Ah, meu tenros meninos, minhas flores por desabrochar, botes que mal abriram! Se vossas almas gentis ainda voam pelos ares, 
e no esto presas em perptua condenao, pairai em meu redor com vossas areas asas e escutai os lamentos de vossa me.
     MARGARIDA - ( parte) Pairai em seu redor. Dizei-lhe que a justia por justia ensombreceu vossa manh infante em noite idosa.
     DUQUESA DE YORK - Tantas foram as desgraas que me quebraram a voz, que minha lngua desgastada de dor est muda e queda. Eduardo Plantageneta, por que razo 
s morto?
     MARGARIDA ( parte) - Plantageneta mata Plantageneta. Eduardo, por Eduardo, paga dvida de morte.
     ISABEL - Pudeste,  Deus, apartar-te de tais gentis cordeiros e arremess-los para as entranhas do lobo? Estavas dormindo quando tal feito se fez?
     MARGARIDA ( parte) - E quando morreu o santo Rei Henrique, e o meu doce filho?
     DUQUESA DE YORK - Vida morta, vista cega, pobre fantasma vivo de um mortal, cena de dor, vergonha do mundo, propriedade do tmulo pela vida usurpada, breve 
sumrio e registro de dias tediosos. (Sentando-se) Sossega teu desassossego no legtimo cho de Inglaterra, ilegitimamente embriagado com sangue inocente.
     ISABEL - Ah, se me pudesses ofertar um tmulo to prestes como me podes conceder um melanclico assento, a eu esconderia ento meus ossos, no os sossegaria 
aqui. (Sentando-se) Ah, quem afora ns tem causa de lamentos?
     MARGARIDA - Se a dor antiga for mais veneranda dai  minha o benefcio da avanada idade, e deixai que meus males sombrios fiquem em lugar cimeiro. Se a dor 
aceita companhia, contais vossos males de novo ao ver os meus. Eu tinha um Eduardo, at que um Ricardo o matou. Eu tinha um marido, at que um Ricardo o matou. Tu 
tinhas um Eduardo, at que um Ricardo o matou. Tu tinhas um Ricardo, at que um Ricardo o matou.
     DUQUESA DE YORK - Eu tambm tinha um Ricardo, e tu mataste-o. Eu tambm tinha um Rutland, tu ajudaste a mat-lo.
     MARGARIDA - Tu tambm tinhas um Clarence, e Ricardo o matou. Do canil do teu ventre saiu rastejando um mastim do inferno que nos persegue at  morte. Esse 
co, ele teve dentes antes de ter olhos, para assustar cordeiros e lamber seu gentil sangue. Esse grande e supremo tirano mais que todos da terra reina em mortificados 
olhos de plangentes almas. Esse imundo destruidor da obra de Deus, teu ventre o soltou para nos perseguir at nossas sepulturas.  Deus reto, justo e vero em suas 
sentenas! Como te agradeo que este rafeiro sangrento devore o que sado foi do corpo de sua me e que de outros na dor a faa companheira.
     DUQUESA DE YORK - , mulher de Henrique, no triunfes tu com minhas mgoas. Deus  testemunha que eu hei chorado pelas tuas.
     MARGARIDA - Pacientai, tenho fome de vingana, e agora me sacio ao contempl-la. Teu Eduardo, esse est morto, ele matou o meu Eduardo, teu outro Eduardo, morto, 
em paga de meu Eduardo. O jovem York, esse no  mais que demasia, porque os dois juntos no atingem a subida perfeio de minha perda. Teu Clarence, esse est morto, 
ele que apunhalou meu Eduardo, e as testemunhas deste impiedoso ato, o adltero Hastings, Rivers, Vaughan, Grey, antes do tempo abafados em seus tmulos sombrios. 
Ricardo ainda vive, dos infernos negro agente. A ele s o guardam como feitor para comprar almas e as mandar para l. Mas cerca, cerca est seu deplorvel, no deplorado 
fim. Abre-se a terra, arde o inferno, rugem os demnios, oram os santos, para que daqui sbito o arranquem. Rompe, querido Deus, assim te peo, seu pacto com a vida, 
para que eu possa viver e dizer: "O co  morto."
     ISABEL - Oh, tu hs profetizado que tempo viria em que eu desejasse que ajuda me desses na maldio dessa aranha inchada, desse sapo marreco.
     MARGARIDA - Dei-te nome, ento, de ornamento vo de minha vida, dei-te nome, ento, de pobre sombra, rainha de fantasia, to-s imagem do que eu fui, lisonjeiro 
sinal de horrfico espetculo, to alto posta, para to baixo ser lanada, me burlesca de dois tenros meninos, sonho do que foste, garrido estandarte para alvo 
de cada perigoso tiro, sinal de dignidade, sopro, bolha, rainha de comdia, s para encher a cena. Onde est agora teu marido? Onde estaro teus irmos? Onde esto 
os teus dois filhos? Em que encontras tu deleite? Quem suplica e se pe de joelhos e diz "Viva a Rainha!"? Onde estaro os pares que se curvavam para te lisonjear? 
Onde estaro as multides que te seguiam? Lembra tudo isto, e v o que ora s: em vez de esposa feliz, mui msera viva, em vez de me ditosa, me que desse nome 
se lamenta; em vez daquela a quem todos suplicavam, uma que humildemente suplica; em vez de Rainha, vera cativa de cuidados coroada; em vez daquela que de mim escarneceu, 
uma que por mim agora  escarnecida; em vez daquela voz que todos temiam, uma que vive agora em temor; em vez daquela que todos comandava, uma de ningum obedecida. 
Assim rodou o curso da justia e uma presa do tempo apenas de ti fez, nada mais tendo do que pensamento do que foste para mais te torturar, sendo o que s. Meu lugar 
usurpaste, e no usurpas tu a justa proporo de minha mgoa? Agora teus ombros orgulhosos carregam a metade do meu pesado jugo, da qual eu aqui mesmo liberto minha 
lassa cabea e sobre ti deixo todo o peso de meu fardo. Adeus, mulher de York, Rainha de m fortuna. Estas mgoas inglesas far-me-o sorrir em Frana.
     ISABEL -  tu, que to sbia s em maldies, atende um pouco e ensina-me a maldizer meus inimigos.
     MARGARIDA - No consintas teu dormir de noite e faz jejum de dia, compara a felicidade morta com a mgoa viva, pensa que mais doces eram teus meninos do que 
de verdade eram, e aquele que os matou mais imundo do que . Tua perda engrandecer  agravar o causador. Pensando nisto aprenders a maldizer.
     ISABEL - So rombas minhas palavras. Oh, agua-as com as tuas.
     MARGARIDA - Tuas mgoas as faro aguadas como as minhas. (Sai)
     DUQUESA DE YORK - Porque ser a calamidade to prenhe de palavras?
     ISABEL - Advogadas de vento para as mgoas de seus clientes, difanas herdeiras de intestadas alegrias, pobres oradores de sopro para misrias! Deixai-lhes 
liberdade. Posto que o que elas ofeream no sirva a mais nada, elas aliviam o corao.
     DUQUESA DE YORK - Se assim , no prendas tua lngua. Comigo vem e sufoquemos no sopro de amargas palavras meu filho maldito, que teus dois gentis meninos sufocou. 
Soa a trombeta. No poupes teus brados. (Entram o Rei Ricardo e seu squito incluindo Catesby marchando ao som de tambores e trombetas.)
     RICARDO III (Rei) - Quem me impede em minha expedio?
     DUQUESA DE YORK - Oh, aquela que te poderia ter impedido, estrangulando-te em seu amaldioado ventre, todos os assassnios, miservel, que tu hs cometido.
     ISABEL - Com uma coroa de ouro escondes essa fronte, que devia estar marcada, se justia houvera, pelo assassnio do Prncipe a quem essa coroa pertencia e 
pela msera morte de meus pobres filhos e irmos? Diz-me tu, ruim vilo, onde esto meus filhos?
     DUQUESA DE YORK - Tu, sapo, tu, sapo, onde est teu irmo Clarence, e o pequeno Ned Plantageneta, seu filho?
     ISABEL - Onde est o gentil Vaughan, Grey?
     DUQUESA DE YORK - Onde est o amvel Hastings?
     RICARDO III (Rei) - Soai trombetas. Tocai alarme, tambores! No deixeis que os cus escutem estas comadres acusar o ungido do Senhor. Tocai, vos digo! (Som 
de trombetas. Alarmes) Pacientai, falai-me com brandura, se no, com clamorosos e belicosos rumores abafarei eu vossos brados.
     DUQUESA DE YORK - s tu, meu filho?
     RICARDO III (Rei) - Sim, pela graa de Deus, de meu pai e de vs mesma.
     DUQUESA DE YORK - Ento com pacincia d ouvidos a minha impacincia.
     RICARDO III (Rei) - Senhora, herdei de vs esta feio de no poder sofrer o som da censura.
     DUQUESA DE YORK - Oh, deixa-me falar.
     RICARDO III (Rei) - Falai, mas no vos ouvirei.
     DUQUESA DE YORK - Serei suave e gentil em meu falar.
     RICARDO III (Rei) - E breve, boa me, que tenho pressa.
     DUQUESA DE YORK - Ests assim to apressado? Por ti esperei, Deus sabe, em tormenta e agonia.
     RICARDO III (Rei) - E no cheguei por fim para vos dar conforto?
     DUQUESA DE YORK - No, pela Cruz Santssima, tu mui bem sabes, vieste  terra para da terra fazeres o meu inferno. Grave fardo foi teu parto para mim; tua primeira 
idade, turbulenta e caprichosa; teus dias de escola, assustadores, desesperados, selvagens e furiosos; tua idade de mancebo audaz, atrevida e de aventura; tua idade 
madura orgulhosa, astuta, falsa e sangrenta: mais branda, todavia mais perigosa ainda, doce em seu odiar. Que hora de conforto podes tu dizer que alguma vez me tenha 
agraciado com tua companhia?
     RICARDO III (Rei) - Por minha f, nem uma, a no ser a hora em que Humphrey Vossa Graa convidou a almoar longe de minha companhia. Se to falto de graa sou 
a vossos olhos, permiti que me v e que no vos ofenda, senhora. Soai, tambores!
     DUQUESA DE YORK - Eu te peo, ouve-me falar.
     RICARDO III (Rei) -  vosso falar demasiado amargo.
     DUQUESA DE YORK - Ouve uma palavra minha, que nunca mais contigo falarei.
     RICARDO III (Rei) - Seja!
     DUQUESA DE YORK - Ou sers morto pela justa ordem de Deus antes que desta guerra sejas o vencedor, ou morrerei eu de dor e de pesada idade e teu rosto no mais 
verei. Por isso, contigo leva minha mais grave maldio, para que ela no dia da batalha te canse mais que a armadura inteira que tu vestes. Minhas preces combatem 
no campo do adversrio, e que l as alminhas dos filhos de Eduardo murmurem aos espritos de teus inimigos e lhes prometam bom sucesso e a vitria. s sanguinoso, 
sanguinoso ser teu fim. A vergonha serve a tua vida e espera a tua morte. (Sai)
     ISABEL - Mor causa hei, porm mora em mim menos alento para maldizer. A ela digo. Amem.
     RICARDO III (Rei) - Ficai, senhora. Tenho uma palavra para vos dizer.
     ISABEL - No tenho mais filhos de sangue real que tu possas matar. Porque minhas filhas, Ricardo, essas sero freiras que oram e no rainhas que choram. No 
apontes a arma para atingir suas vidas.
     RICARDO III (Rei) - Tendes uma filha de nome Isabel, virtuosa e bela, rgia e graciosa.
     ISABEL - E por isso dever morrer? Oh, deixa-a viver, e eu corromperei sua virtude, mancharei sua formosura, e me caluniarei como infiel ao leito de Eduardo. 
Sobre ela lanarei o vu da infmia. Para que ela possa viver livre do assassnio sangrento confessarei que ela no era filha de Eduardo.
     RICARDO III (Rei) - No mancheis seu nascimento,  uma princesa real.
     ISABEL - Para salvar sua vida eu direi que tal no .
     RICARDO III (Rei) - Sua vida tem segurana somente em seu nascimento.
     ISABEL - E nessa segurana somente morreram seus irmos.
     RICARDO III (Rei) - Ai, em nascendo as boas estrelas lhes foram contrrias.
     ISABEL - No, maus amigos  sua vida se opuseram.
     RICARDO III (Rei) - Inevitvel  a condenao do destino.
     ISABEL - Decerto, quando a graa evitada em destino se transforma. Meus meninos estavam destinados a mais justa morte se a graa te tivera abenoado com mais 
justa vida.
     RICARDO III (Rei) - Falais como se eu tivera assassinado meus primos.
     ISABEL - Primos em verdade! E pelo tio despojados de conforto, reino, parentes, liberdade, vida. De quem quer que fosse a mo que seus tenros coraes apunhalou, 
tua cabea foi que inviamente o mando lhe deu. Sem dvida a assassina faca estava romba e embotada at que aguada foi no teu corao de pedra para penetrar nas 
entranhas de meus cordeirinhos. Porm, se a usana constante da dor no demorar a dor selvagem, no nomeara minha lngua a teus ouvidos meus meninos antes que minhas 
unhas ancoradas fossem em teus olhos, e que eu, nessa enseada de morte de tamanho desespero, qual pobre barca sem velas e sem remos, me despedaasse contra teu rochoso 
peito.
     RICARDO III (Rei) - Senhora, assim eu prospere em minha empresa e nos perigosos acasos das guerras sangrentas, como vos prometo maior bem a vs e aos vossos 
do que o mal que vs e os vossos por mim haveis sofrido.
     ISABEL - Que bem, coberto pela face do cu, em sendo descoberto, me poder ser bem?
     RICARDO III (Rei) - A ascenso de vossos filhos, gentil senhora.
     ISABEL - Ao cadafalso, para a perderem suas cabeas.
     RICARDO III (Rei) -  dignidade e aos cumes da fortuna, alto emblema imperial da glria desta terra!
     ISABEL - Lisonjeia minha dor com tal relato. Diz-me: que estado, que dignidade, que honra a um filho meu podes tu conferir?
     RICARDO III (Rei) - Tudo o que eu tenho, sim, e eu prprio, e tudo, quero eu doar a um filho teu, para que no Lethes de tua alma irada possas afogar a triste 
lembrana daquelas ofensas que supes eu te hei causado.
     ISABEL - S breve, para que o processo de tua bondade no dure mais que o tempo de tua bondade.
     RICARDO III (Rei) - Sabe ento que do fundo de minha alma eu amo tua filha.
     ISABEL - A me de minha filha em sua alma pensa.
     RICARDO III (Rei) - Que pensais?
     ISABEL - Que amas minha filha do fundo de tua alma. Tambm do fundo de tua alma amaste seus irmos, e do fundo do corao por isso te agradeo.
     RICARDO III (Rei) - No vos apresseis a mal entender meu pensamento. Quero dizer que com minha alma amo vossa filha e  meu intento fazer dela Rainha de Inglaterra.
     ISABEL - Ora bem, quem pensas ento que ser seu Rei?
     RICARDO III (Rei) - Precisamente quem dela far Rainha. Quem mais seria?
     ISABEL - Qu, tu?
     RICARDO III (Rei) - Esse mesmo. Disso que pensais?
     ISABEL - Como podes cortej-la?
     RICARDO III (Rei) - Isso poderia convosco aprender, j que a seu humor vs sois a mais costumada.
     ISABEL - E isso comigo queres tu aprender?
     RICARDO III (Rei) - Senhora, com todo o meu corao!
     ISABEL - Manda-lhe, pelo homem que assassinou seus irmos, dois coraes sangrando. Neles cinzelai "Eduardo" e "York". Talvez que ento ela chore. Em seguida 
oferece-lhe - como outrora Margarida fez a teu pai, embebido no sangue de Rutland - um leno, o qual, diz-lhe, enxugou a purprea seiva do corpo de seu doce irmo, 
e diz-lhe que com ele seque seus chorosos olhos. Se este incentivo no a levar a amar, manda-lhe uma carta com teus nobres feitos. Diz-lhe que fizeste desaparecer 
seu tio Clarence, seu tio Rivers, sim, e que por amor dela breve te desfizeste de sua boa tia Ana.
     RICARDO III (Rei) - Zombais de mim, senhora, no  esta a guisa de ganhar a vossa filha!
     ISABEL - Outra guisa no h. A menos que pudesses tomar qualquer outra forma e no fosses Ricardo, e no houvesses tudo isto cometido.
     RICARDO III (Rei) - E se lhe disser que tudo isto cometi por amor dela?
     ISABEL - No, que ento ela outra escolha no teria afora o odiar-te, por teres comprado amor com to sangrento esplio.
     RICARDO III (Rei) - Olhai, o que feito est no pode mais ser emendado. Os homens agem por vezes sem razo e o porvir lhes concede tempo para arrependimento. 
Se a vossos filhos eu tomei o reino, em reparao a vossa filha eu o darei. Se matei o fruto de vosso ventre, para dar vida a descendentes vossos, irei gerar fruto 
meu de sangue vosso em vossa filha. O nome de av pouco menos tem de amor que o apaixonado ttulo de me. So como filhos, num degrau mais em baixo; feitos do vosso 
metal, do vosso prprio sangue; da mesma dor, afora uma noite de gemidos que suporta aquela por quem vs igual pena haveis sofrido. Vossos filhos foram nojo para 
vossa juventude, mas o meu ser conforto para vossos anos avanados. A perda que haveis  s um filho que era Rei e por essa perda ser Rainha vossa filha. No posso 
dar-vos a reparao que eu desejara, por isso aceitai a bondade de que sou capaz. Dorset, vosso filho, que com alma temerosa d passos descontentes em estrangeiro 
solo, esta bela aliana breve o chamar ao lar para subidas promoes e grande dignidade. O Rei que chama esposa a vossa formosa filha, como parente chamar a teu 
Dorset irmo. Sereis de novo me de um Rei. E todas as runas de desgostosos tempos reparadas sero com dobradas riquezas de contentamento. Qu! Ainda veremos muitos 
e bons dias. As lquidas gotas das lgrimas que haveis derramado de novo voltaro mudadas em porias do Oriente, pagando delas o emprstimo com bons juros de dez 
vezes o dobrado ganho de felicidade. Vai ento, minha me, vai adiante tua filha. Com vossa experincia animai seus tmidos anos, aparelhai seus ouvidos para ouvirem 
proposies de amor, ponde em seu tenro peito a chama desejosa da dourada soberania, dai conhecimento  Princesa das horas silenciosas e doces das alegrias do himeneu. 
E quando este meu brao houver punido o msero rebelde, o pouco entendido Buckingham, regressarei cingido em triunfais coroas e guiarei tua filha ao leito de um 
vencedor. A ela contarei a vitria que ganhei e ela s ser a vencedora, Csar do prprio Csar.
     ISABEL - Que ser melhor dizer? Que o irmo de seu pai quereria ser o seu senhor? Ou devo dizer seu tio? Ou aquele que assassinou os seus irmos e seus tios? 
Qual ttulo usarei para em teu nome cortejar, que Deus, a lei, minha honra e seu amor possam tornar amvel a seus tenros anos?
     RICARDO III (Rei) - Fala da paz da bela Inglaterra por meio desta aliana.
     ISABEL - Que ela comprar com infindvel guerra.
     RICARDO III (Rei) - Diz-lhe que o Rei, que pode mandar, suplica.
     ISABEL - Aquilo que, nas mos dela, o Rei dos Reis probe.
     RICARDO III (Rei) - Diz-lhe que ser Rainha sublime e poderosa.
     ISABEL - Para deixar o ttulo como agora sua me.
     RICARDO III (Rei) - Diz que toda a eternidade a amarei.
     ISABEL - Mas essa eternidade quanto tempo dura?
     RICARDO III (Rei) - Com doura viver, at que sua formosa vida tenha fim.
     ISABEL - Mas quanto tempo durar sua doce vida em formosura?
     RICARDO III (Rei) - Tanto tempo quanto o cu e a natureza o permitirem.
     ISABEL - Tanto tempo como o inferno e Ricardo o desejarem.
     RICARDO III (Rei) - Diz que eu, seu soberano, sou seu humilde sbdito.
     ISABEL - Mas ela, vossa sbdita, odeia tal soberania.
     RICARDO III (Rei) - S eloqente diante dela em meu favor.
     ISABEL - Mais favorece um conto honesto se for feito com simpleza.
     RICARDO III (Rei) - Ento diz-lhe com simpleza o conto de meu amor.
     ISABEL - Simples e no honesto  estilo demasiado discordante.
     RICARDO III (Rei) - Vossas razes so demasiado leves e demasiado vivas.
     ISABEL - Oh, no, minhas razes so demasiado pesadas e mortas; demasiado pesados e mortos, pobres infantes, em seus tmulos.
     RICARDO III (Rei) - Essa corda no deveis tanger, senhora, passado .
     ISABEL - Tangerei, at que se quebrem as cordas do corao.
     RICARDO III (Rei) - Pois pelo meu So Jorge, pela minha Jarreteira e por minha coroa...
     ISABEL - Profanado um, desonrada a outra e a terceira usurpada...
     RICARDO III (Rei) - Juro...
     ISABEL - Por nada, que isto no  juramento. O teu So Jorge, profanado, perdeu sua sagrada honra. A tua Jarreteira, manchada, penhorou sua fidalga virtude. 
A tua coroa, usurpada, desgraou sua glria real. Se por alguma coisa quiseres jurar para que algum te creia, jura ento por coisa que no tenhas ofendido.
     RICARDO III (Rei) - Bom, pelo mundo...
     ISABEL - Prenhe est de imundas ofensas.
     RICARDO III (Rei) - A morte de meu pai...
     ISABEL - Tua vida a desonrou.
     RICARDO III (Rei) - Ento por mim prprio...
     ISABEL - Tu prprio a ti prprio usaste mal.
     RICARDO III (Rei) - Ora ento, por Deus...
     ISABEL - A ofensa a Deus  de todas a maior: se temeras quebrar uma jura que a Ele tiveras feito, a unio que o Rei, meu marido, concertou, no a terias tu 
quebrado, nem meus irmos morrido. Se houveras temido quebrar uma jura que por Ele tiveras feito, o metal imperial que ora cinge tua fronte teria ornado a suave 
testa de meu filho, e aqui estariam os dois prncipes que agora - dois tenros companheiros de leito destinados  poeira - a tua f quebrada em presa de vermes transformou. 
Porque coisa podes agora jurar?
     RICARDO III (Rei) - O tempo por vir!
     ISABEL - Esse tu o ofendeste no tempo que  passado, que eu prpria muitas lgrimas tenho para lavar. O tempo por vir, pelo tempo passado que tu ofendeste. 
Vivem os filhos cujos pais assassinaste: juventude abandonada, que o lamentar na velhice. Vivem os pais cujos filhos tu com crueza mataste: velhas, estreis plantas, 
que o lamentaro com a velhice. No jures pelo tempo por vir, que esse ofendeste tu, antes de usado, por tempos mal usados do passado.
     RICARDO III (Rei) - Tal como  meu intento prosperar e repentir-me, assim vena eu em meus tratos perigosos de armas hostis! Eu prprio a mim prprio me destrua! 
Deus e fortuna, negai-me horas felizes! Dia, no me concedas tua luz, nem tu, noite, teu repouso! Sede contrrios, todos vs, planetas de boa sorte, a meus procedimentos, 
se, com o amor de um leal corao, imaculada devoo e subidos pensamentos, eu no amar tua real, formosa filha. Nela tem assento minha felicidade e a tua. Sem ela, 
haver para mim e para ti, para ela prpria, para a terra e para muita alma crist, morte, desolao, runa e decadncia. Isto s assim se pode evitar. Portanto, 
querida me - assim vos devo chamar -, sede o advogado do meu amor por ela, falai do que eu serei, no do que eu hei sido; no naquilo que mereo mas do que hei 
de merecer. Instai na necessidade e no estado dos tempos, e no vos mostreis contrria a grandes intentos.
     ISABEL - Deverei ser tentada assim pelo demnio?
     RICARDO III (Rei) - Sim, se o demnio vos tentar a fazer bem.
     ISABEL - Deverei a mim prpria esquecer para ser eu prpria?
     RICARDO III (Rei) - Sim, se a lembrana de vs prpria a vs prpria ofender.
     ISABEL - Porm, tu mataste meus filhos.
     RICARDO III (Rei) - Mas no ventre de vossa filha eu os enterro, e a, nesse oloroso ninho, renascero de si prprios, para conforto vosso.
     ISABEL - Deverei eu ir aparelhar minha filha para o teu desejo?
     RICARDO III (Rei) - E sede, por esse feito, me feliz.
     ISABEL - Eu vou. Escrevei-me muito em breve e sabereis de mim seu pensamento.
     RICARDO III (Rei) - Levai-lhe o beijo de meu vero amor. Beija-a. E ento adeus. (Sai Isabel) Resignada louca, mulher mutvel e vazia! (Entra Ratcliffe.) Ento, 
que novas?
     RATCLIFFE - Mui poderoso soberano, na costa ocidental navega poderosa armada. s nossas praias se dirige um ajuntamento de muitos amigos duvidosos, vazios de 
corao, desarmados, e pouco decididos a atac-los. Pensam que Richmond  o almirante. E ali flutuam, to-s esperando o auxlio de Buckingham para os acolher no 
desembarque.
     RICARDO III (Rei) - Que um amigo lesto corra junto do Duque de Norfolk. Ratcliffe, tu, ou Catesby. Onde est ele?
     CATESBY - Aqui, meu bom senhor.
     RICARDO III (Rei) - Catesby, voa junto do Duque.
     CATESBY - Isso farei, meu senhor, com toda a pressa que convm.
     RICARDO III (Rei) - Ratcliffe, vem c. Corre a Salisbury. Quando voltares... (Para Catesby) Imbecil, miservel vilo! Porque ests ainda aqui e no te partiste 
junto do Duque?
     CATESBY - Primeiro, poderoso senhor, dizei-me de vossa vontade, o que da parte de Vossa Graa deverei contar ao Duque.
     RICARDO III (Rei) - ,  verdade, bom Catesby! Diz-lhe que levante de imediato as maiores foras e tropas que puder, e que v de contnuo ao meu encontro em 
Salisbury.
     CATESBY - Eu vou. (Sai)
     RATCLIFFE - Dizei-me, se vos apraz, que devo fazer em Salisbury?
     RICARDO III (Rei) - Porqu, que farias tu l antes que eu fosse?
     RATCLIFFE - Vossa Alteza me disse que eu devia correr antes.
     RICARDO III (Rei) - Mudei meu intento. (Entra Stanley, Conde de Derby.) Stanley, que novas trazeis?
     STANLEY - Nenhuma, meu suserano, que vos possa agradar ouvir. Nenhuma tambm to m que a no deva bem contar.
     RICARDO III (Rei) - Eia, uma adivinha! Nem boa nem m...  mister correr tantas milhas em redor se h caminho mais direto para me dizeres teu conto? Uma vez 
mais, que novas?
     STANLEY - Richmond est no mar.
     RICARDO III (Rei) - Que a se afunde e que o mar o cubra! Renegado covarde! Que faz ele l?
     STANLEY - No sei, poderoso soberano, apenas adivinho.
     RICARDO III (Rei) - Sim e que adivinhas tu?
     STANLEY - Movido por Dorset, Buckingham e Morton, vem a Inglaterra reclamar a coroa.
     RICARDO III (Rei) - Est o trono vago? No est empunhada a espada? Est morto o Rei? O imprio sem governante? Que outro herdeiro de York  vivo afora ns? 
E quem  Rei de Inglaterra seno o herdeiro do grande York? Dizei-me, ento, que faz ele por sobre os mares?
     STANLEY - Mais do que isto, meu suserano, no posso adivinhar.
     RICARDO III (Rei) - Mais do que ele vir para ser vosso suserano no podeis adivinhar que coisa faz vir o Gals. Tu te revoltars e fugirs junto dele, receio 
eu.
     STANLEY - No, meu bom senhor, no desconfieis de mim.
     RICARDO III (Rei) - Onde est ento tua fora para o atacares? Onde so teus vassalos e os teus sequazes? No so eles agora na costa ocidental desembarcando 
a salvo os revoltosos dos navios?
     STANLEY - No, meu bom senhor, meus amigos so a norte.
     RICARDO III (Rei) - Frios amigos eles me so. Que fazem eles a norte, quando deviam servir seu soberano a ocidente?
     STANLEY - Ordens tais no receberam, poderoso Rei, queira Vossa Majestade despedir-me. Ajuntarei meus amigos e encontrarei Vossa Graa onde e quando a Vossa 
Majestade aprouver.
     RICARDO III (Rei) - Sim, sim, tu gostarias de ir, para te ajuntares a Richmond. Mas no confiarei em ti.
     STANLEY - Mui poderoso soberano, razo no haveis de pr em dvida minha amizade. Falso nunca fui, nem nunca serei.
     RICARDO III (Rei) - Ide ento, e ajuntai homens... mas deixai para trs vosso filho George Stanley. Cuidai que seja firme vosso corao, ou bem fraca ser a 
seguridade de sua cabea.
     STANLEY - Tratai com ele conforme as provas de lealdade que eu vos der. (Sai)
     (Entra um mensageiro.)
     MENSAGEIRO - Meu gracioso soberano, agora no condado de Devon - assim mo contaram amigos verdadeiros - o senhor Eduardo de Courtney e o altivo prelado, o Bispo 
de Exeter, seu irmo mais velho, com muitos mais confederados, se puseram em armas.
     (Entra outro mensageiro.)
     SEGUNDO MENSAGEIRO - Em Kent, meu suserano, os Guildfords se puseram em armas, e a cada hora mais companheiros se juntam aos revoltosos, e o seu poder recresce.
     (Entra outro mensageiro.)
     TERCEIRO MENSAGEIRO - Meu senhor, o exrcito do grande Buckingham...
     RICARDO III (Rei) - Fora daqui, corujas! Nada mais que canes de morte? (Bate-lhe) Anda, torna, at que tragas novas melhores.
     TERCEIRO MENSAGEIRO - As novas que tenho para Vossa Majestade  que, por repentinas cheias e muita chuva, o exrcito de Buckingham  disperso e desfeito, e 
ele prprio erra sozinho ningum sabe por onde.
     RICARDO III (Rei) - Suplico-te perdo. A est a minha bolsa, para curar a tua ferida. Algum prudente amigo houve que tenha proclamado alguma recompensa quele 
que trouxer o traidor?
     TERCEIRO MENSAGEIRO - Tal proclamao foi feita, meu senhor.
     (Entra outro mensageiro.)
     QUARTO MENSAGEIRO - O senhor Toms de Lovell e o senhor Marqus de Dorset, diz-se, meu suserano, no condado de York se puseram em armas, mas este bom conforto 
trago eu a Vossa Alteza: a armada bret foi dispersada pela procela. Richmond, no condado de Dorset, enviou uma embarcao  costa, para saber dos que estavam nas 
praias, se eram aliados seus, se sim se no. Ao que lhe responderam que vinham da parte de Buckingham para o sustentar. Ele, neles no confiando, deu velas e navegou 
de novo rumo  Bretanha.
     RICARDO III (Rei) - Marchemos, marchemos, pois que nos pusemos em armas, se no para lutar contra inimigos de fora, pelo menos para derrotar estes revoltosos 
c de dentro.
     (Entra Catesby.)
     CATESBY - Meu suserano, o Duque de Buckingham est cativo. Esta nova  a melhor. Que o Conde de Richmond desembarcou com poderosa fora em Milford e mais fria 
nova, contudo dever ser dita.
     RICARDO III (Rei) - Vamos para Salisbury! Enquanto aqui despendemos razes pode ser ganha ou perdida uma batalha real. Que algum ordene que tragam Buckingham 
a Salisbury; os outros marchem comigo.
     (Toque de trombetas. Saem)

      
Cena V
      
(Entram Stanley, Conde de Derby, e o senhor D. Cristvo de Urswich.)
      
     STANLEY - Senhor D. Cristvo diz de minha parte a Richmond que no antro do javali mais mortfero est retido meu filho George Stanley. Se me revolto, salta 
a cabea do jovem George. Tal receio me impede de ajuda prestar neste momento. Agora vai-te. Encomenda-me ao teu senhor. Diz entanto que a Rainha do corao concedeu 
que ele desposasse sua filha Isabel. Mas diz-me, onde est ora o prncipe Richmond?
     D. CRISTOVO - Em Pembroke, ou em Harfodwest, no Pas de Gales.
     STANLEY - Que homens de nomeada a ele se juntaram?
     D. CRISTOVO - O senhor D. Walter Herbert, um soldado famoso; o senhor D. Gilberto Talbot, o senhor D. Guilherme Stanley, Oxford, o terrvel Pembroke, o senhor 
D. Jaime Blunt, e D. Rice a Thomas, com muitos homens valentes, e muitos outros de grande nome e valor, e para Londres dirigem suas hostes se no caminho no lhes 
puserem embargo.
     STANLEY - Bom, vai junto de teu senhor. Beija-lhe a mo. Minha carta lhe dir do meu intento. Adeus.
     (Saem)

      
ATO V
Cena I
      
(Entram o Xerife com alabardeiros e Buckingham a caminho do cadafalso.)
      
     BUCKINGHAM - No permitir El-Rei Ricardo que eu fale com ele?
     XERIFE - No, meu bom senhor, por isso pacientai.
     BUCKINGHAM - Hastings e filhos de Eduardo, Grey e Rivers, Santo Rei Henrique, e teu formoso filho Eduardo, Vaughan, e todos aqueles que pereceram por fingida, 
corrompida e ignbil injustia, se vossas almas soturnas e sem contentamento contemplam atravs das nuvens a presente hora, juntamente por vingana zombai de meu 
estrago. Hoje  Dia de Finados, no  assim, companheiro?
     XERIFE - .
     BUCKINGHAM - Pois ento  o Dia de Finados o Dia do Juzo de meu corpo. Foi este o dia que, em tempos de El-Rei Eduardo, desejei se abatera sobre mim se provas 
houvera de minha falsidade a seus filhos e aliados da Rainha. Foi este o dia em que tive desejo de cair por falsa f daquele em quem mais confiana tinha. Este, 
este Dia de Finados,  para minha temerosa alma o derradeiro prazo para a punio de minhas culpas. Ele que tudo v e com quem usei de fingimento desviou minha fingida 
prece por sobre minha cabea, e tomou por vero o que eu por brinco manifestava. Desta guisa ele fora as espadas de ruins vares a voltarem suas pontas contra os 
peitos de seus donos. Desta guisa grave cai sobre meus ombros a maldio de Margarida. "Quando ele", disse ela, "quebrar de dor o teu prprio corao, lembra-te 
de que Margarida era profeta!" Vinde, levai-me, guardas, para junto do cepo da vergonha, o agravo tem apenas o agravo e a culpa a dvida da culpa. (Sai com os guardas)

      
Cena II
      
(Entram Richmond, Oxford, Blunt, Herbert e outros, com tambores e bandeiras)
      
     RICHMOND - Companheiros de armas e meus amigos mui queridos, feridos sob o jugo da tirania, at aqui, aqui dentro das entranhas da terra, avanamos sem embargo, 
e eis que de nosso pai Stanley recebemos laudas de bom agasalho e encorajamento. O javali usurpador, sanguinoso e miservel, que estrangulou vossas colheitas de 
vero e vossas vinhas frutferas, sorve vosso sangue quente como se lavadura fora, e usa como gamela vossas entranhas abertas. Esse porco imundo ora  no centro 
mesmo desta ilha, cerca da cidade de Leicester, segundo soubemos. Tanworth no dista mais desse lugar que um dia de marcha. Em nome de Deus, alegremente avante, 
amigos valorosos, para que faamos ceifa de perptua paz por este juzo sanguinoso de acendida guerra.
     OXFORD - A conscincia de cada homem vale mil homens no combate contra o culpado homicida.
     HERBERT - No duvido de que meus amigos se juntem a ns.
     BLUNT - Ele no tem amigos afora aqueles que por temor amigos so, que dele fugiro quando a ele mais necessrios forem.
     RICHMOND - Tudo  em nosso favor. Ento, em nome de Deus, marchemos. A vera esperana  veloz e voa com asas de andorinha, muda em deuses reis, e em reis criaturas 
mais humildes.
     (Saem)

      
Cena III
      
(Entra o Rei Ricardo armado, com Norfolk, Ratcliffe, e o Conde de Surrey, com outros.)
      
     RICARDO III (Rei) - Assentai aqui nossa tenda, aqui mesmo no campo de Bosworth. (Levantam a tenda de Ricardo, num lado do palco) Meu senhor de Surrey, porque 
mostrais to triste semblante?
     SURREY - Meu corao  ledo dez vezes mais que meu semblante.
     RICARDO III (Rei) - Meu senhor de Norfolk.
     NORFOLK - Aqui, mui gracioso suserano.
     RICARDO III (Rei) - Norfolk, muitas estocadas haver... h, no haver?
     NORFOLK - Haver para dar e receber, meu estimado senhor.
     RICARDO III (Rei) - Levantai minha tenda! Esta noite aqui me deitarei. Mas onde, amanh? Bem,  tudo o mesmo. Quem descobriu o nmero dos traidores?
     NORFOLK - Seis ou sete mil, no mais.
     RICARDO III (Rei) - Ora, as nossas hostes triplicam essa conta! E mais, o nome do Rei  uma fortaleza de que carece a faco adversa. Levantai a tenda! Vinde, 
nobres fidalgos, estudemos os benefcios do terreno. Chamai alguns homens de boa experincia. Que no falea o rigor, que no haja tardana, que amanh, senhores, 
 dia operoso!
     (A tenda est agora pronta. Saem por uma porta)
     (Entram pela outra porta Richmond, o senhor D. Guilherme de Brandon, Oxford e Herbert Blunt e outros, que armam a tenda de Richmond no outro lado do palco.)
     RICHMOND - O lasso sol em ouro se deitou, e pelo luminoso rasto de seu carro de fogo faz promessa para amanh de um dia bom. Senhor D. Guilherme de Brandon, 
empunhareis meu estandarte. Meu senhor de Oxford, vs, senhor D. Guilherme de Brandon, e vs, senhor D. Walter Herbert, comigo permanecei. O Conde de Pembroke conserva 
seu regimento. Bom capito Blunt, levai-lhe da minha parte a boa noite. E pela segunda hora da manh pedi ao Conde que me procure na tenda. Uma coisa mais, porm, 
bom capito, por mim fazei: onde assentou arraial o senhor de Stanley, sabeis?
     BLUNT - A menos que eu tenha confundido suas cores, o que hei por certeza no ter feito, seu regimento se assenta pelo menos a meia milha a sul do poderoso 
exrcito do Rei.
     RICHMOND - Se for possvel sem perigo, amvel Blunt, achai bons meios de com ele falar. E dai-lhe da minha parte este papel mui necessrio.
     BLUNT - Por vida minha, senhor meu, tal farei eu. E assim Deus vos conceda bom repouso nesta noite.
     RICHMOND - Boa noite, bom capito Blunt. (Sai Blunt) Dai-me tinta e papel em minha tenda. Traarei a forma e disposio de nossa batalha. Darei a cada chefe 
o limite de seus variados cargos, e com justa medida repartirei nosso pequeno exrcito. Vinde, senhores, despenderemos razes sobre os sucessos de amanh. Entremos 
em minha tenda, o orvalho  frio e cru.
     (Richmond, Brandon, Oxford e Herbert vo para dentro da tenda. Os outros saem)
     (Entram o Rei Ricardo, Ratcliffe, Norfolk, Catesby e guardas)
     RICARDO III (Rei) - Que hora ?
     CATESBY -  hora da ceia, meu senhor, nove horas.
     RICARDO III (Rei) - No cearei eu esta noite. Dai-me tinta e papel. Ento,  meu elmo mais suave do que era, e toda minha armadura  posta em minha tenda?
     CATESBY - Assim , meu suserano, e todas as coisas prestes so.
     RICARDO III (Rei) - Bom Norfolk, vai lesto tomar teu cargo. Faz guarda cuidadosa, escolhe ordenanas seguras.
     NORFOLK - Vou, meu senhor.
     RICARDO III (Rei) - Levanta-te amanh com a cotovia, gentil Norfolk.
     NORFOLK - Disso podeis estar certo, meu senhor. (Sai)
     RICARDO III (Rei) - Catesby!
     CATESBY - Meu senhor?
     RICARDO III (Rei) - Manda um passavante junto do regimento de Stanley. Ordena-lhe que traga suas hostes antes que nasa o sol, ou seu filho George cair no 
abismo cego da eterna noite. (Sai Catesby) Enchei-me uma taa de vinho. Dai-me uma candeia. Aparelhai o branco Surrey para a batalha, amanh. Vede se so firmes 
minhas lanas, mas no pesadas demais.
     RATCLIFFE - Meu senhor?
     RICARDO III (Rei) - Hs visto o melanclico senhor de Northumberland?
     RATCLIFFE - D. Toms, o Conde de Surrey e ele prprio,  hora em que se deitam as galinhas, de companhia em companhia andaram pelo exrcito, e davam nimo aos 
soldados.
     RICARDO III (Rei) - Bem, contente sou. Dai-me uma taa de vinho. No tenho eu aquela alacridade do esprito nem o regozijo que eu em minha mente usava ter. 
Pe isso a. Est pronto o papel e a tinta?
     RATCLIFFE - Est, meu senhor.
     RICARDO III (Rei) - Pe minha guarda em viglia. Deixa-me s. Ratcliffe, pelo meio da noite vem  minha tenda e ajuda-me a vestir a armadura. Deixa-me, te digo 
eu.
     (Sai Ratcliffe. Ricardo desaparece dentro da tenda, soldados em guarda vigiam-na. Entra Stanley, Conde de Derby, na tenda de Richmond)
     STANLEY - Que a Fortuna e a Vitria pousem sobre teu elmo!
     RICHMOND - Que todo o agasalho que a noite escura pode conceder seja para tua pessoa, nobre padrasto. Diz-me, como se encontra nossa querida me?
     STANLEY - Em seu nome, eu te abenoo da parte de tua me, Que reza sem cessar pelo bem de Richmond. E quanto a isto terminei. As horas silenciosas seguem seu 
furtivo curso e a escurido em lminas se quebra por dentro do Oriente. Sendo breve, pois a tanto nos obriga a ocasio, prepara tua batalha de manh mui cedo e depe 
tua fortuna no arbtrio das sangrentas estocadas e da guerra de mortfero olhar. Eu, como puder - o que faria no posso eu fazer - da melhor sorte enganarei o tempo 
e socorro te darei neste recontro de armas duvidoso. Mas no ser possvel que eu tome com clareza tua parte por no teu irmo, o jovem George, ser diante de seu 
pai executado. Adeus. A prontido e a hora temerosa impedem os usados votos do bem querer e o vasto comrcio de prticas amenas em que amigos h longo tempo separados 
se deviam tardar. Deus nos d ocasio para estes ritos do bem querer. Uma vez mais adieu; s valente e que a fortuna te acompanhe.
     RICHMOND - Bons senhores, conduzi-o a seu regimento. Tentarei, com turvados pensamentos, dormir um pouco para que amanh o plmbeo sono me no derrube quando 
montar devia com as asas da vitria. Uma vez mais, boa noite, amveis senhores e fidalgos. (Saem Stanley com Brandon, Oxford e Herbert) (Ajoelha-se)  Tu, de quem 
me tomo por capito, contempla minhas hostes com benigno olhar. Depe em suas mos os contundentes ferros de tua ira porque eles possam esmagar, com grave queda, 
os elmos usurpadores de nossos adversrios. Nos torna em Teus ministros do castigo, porque na vitria Te possamos louvar. A Ti encomenda minha alma vigilante antes 
que deixe cair as fenestras de meus olhos. Adormecido e acordado,  sempre me defende! (Levanta-se, desaparece na tenda, deita-se e dorme)
     (Entra o fantasma do jovem Prncipe Eduardo, filho de Henrique VI.)
     FANTASMA DO PRNCIPE EDUARDO (ao Rei Ricardo) - Sentirs o meu peso amanh em tua alma. Lembra-te como me apunhalaste na Primavera da minha juventude em Tewkesbury. 
Por isso desespera e morre. (Para Richmond) Alegra-te, Richmond, que as maltratadas almas de prncipes assassinados lutam em teu favor. O filho do Rei Henrique, 
Richmond, te conforta.
     (Sai. Entra o fantasma de Henrique VI)
     FANTASMA DE HENRIQUE VI (ao Rei Ricardo) - Quando eu era mortal, meu corpo ungido por ti crivado foi de chagas mortais. Pensa na Torre e em mim. Desespera e 
morre. Henrique VI ordena que desesperes e morras! (Para Richmond) Virtuoso e santo, s tu o vencedor. Henrique, que profetizou que Rei serias, em teu sono te conforta. 
Vive e floresce.
     (Sai. Entra o fantasma de Clarence.)
     FANTASMA DE CLARENCE (ao Rei Ricardo) - Que sintas amanh meu peso em tua alma, eu, que fui morto em banho de imundo vinho, eu, pobre Clarence, por ti trado 
at  morte. Amanh, na batalha, pensa em mim, e que caia sem gume tua espada. Desespera e morre. (Para Richmond) Tu, fruto da Casa de Lancastre, os maltratados 
herdeiros de York oram por ti. Guardem os anjos bons tua batalha. Vive e floresce.
     (Sai. Entram os fantasmas de Rivers, Grey e Vaughan)
     FANTASMA DE RIVERS (ao Rei Ricardo) - Que sintas amanh meu peso em tua alma, sou Rivers que morreu em Pomfret. Desespera e morre.
     FANTASMA DE GREY (ao Rei Ricardo) - Pensa em Grey e que tua alma desespere.
     FANTASMA DE VAUGHAM (ao Rei Ricardo) - Pensa em Vaughan, e com culpado temor deixa cair tua lana. Desespera e morre.
     TODOS (para Richmond) - Acorda e pensa que nossas ofensas no peito de Ricardo o vencero. Acorda e ganha o dia.
     (Saem)
     (Entra o fantasma de Hastings.)
     FANTASMA DE HASTINGS (ao Rei Ricardo) - Sanguinolento e culpado, em culpa acorda e em batalha sanguinolenta finda teus dias. Pensa na senhora de Hastings. Desespera 
e morre. (Para Richmond) Alma pura, calma, acorda, acorda. Arma-te, peleja e vence por amor da formosa Inglaterra.
     (Sai. Entram os fantasmas dos dois jovens prncipes.)
     FANTASMAS (ao Rei Ricardo) - Pensa em teus primos sufocados na Torre. Chumbo sejamos dentro em teu peito, Ricardo, e com nosso peso te arremessemos para a runa, 
infmia e morte. As almas de teus sobrinhos ordenam que desesperes e morras. (Para Richmond) Dorme, Richmond, dorme em paz, e com alegria acorda. Guardem-te os anjos 
bons dos ataques do javali. Vive e gera feliz linhagem de reis. Os infelizes filhos de Eduardo ordenam que floresas.
     (Saem. Entra o fantasma da senhora Dona Ana, sua esposa)
     FANTASMA DE ANA (ao Rei Ricardo) - Ricardo, tua mulher, essa msera Ana, tua mulher, que no dormiu contigo uma s hora feliz, enche agora teu sono de turvaes. 
Amanh na batalha pensa em mim, e caia, sem gume, tua espada. Desespera e morre. (Para Richmond) Tu, alma tranqila, dorme teu sono tranqilo. Sonha bom sucesso 
e uma vitria feliz. A mulher de teu adversrio ora por ti.
     (Sai. Entra o fantasma de Buckingham)
     FANTASMA DE BUCKINGHAM (ao Rei Ricardo) - Fui aquele que primeiro te ajudou a chegar  coroa, o ltimo que sentiu a tua tirania. Oh, na batalha pensa em Buckingham, 
e morre no terror das tuas culpas. Sonha, sonha sanguinolentos feitos e morte. Em perdendo foras desespera, em desesperando, exala teu derradeiro sopro. (Para Richmond) 
Morri na esperana e antes que te pudesse ajudar, mas que teu corao se alegre, e no esmoreas. Deus e os anjos bons pelejam ao lado de Richmond. E Ricardo cai 
do cume de todo seu orgulho. (Sai)
     (Ricardo acorda sobressaltado)
     RICARDO III (Rei) - Dai-me outro cavalo! Ligai minhas feridas! Tende piedade, Jesus! Chiu, to-s sonhava.  covarde conscincia, como me atormentas! As luzes 
ardem azuis,  a meia noite dos mortos. Gotas frias de terror so no meu corpo tremente. De que me receio? De mim prprio? No  mais ningum aqui. Ricardo ama Ricardo, 
ou seja, eu e eu. E aqui um assassino? No! Sim, sou eu! Ento fuge. Qu, de mim prprio? Boa razo h, no me v eu vingar! Qu, eu prprio contra mim prprio? 
Coitado de mim, eu amo-me a mim prprio. Porqu? Pelos bens que eu prprio a mim prprio ofereci? Oh, no, pobre coitado, antes a mim prprio tenho dio por feitos 
odiosos que eu prprio cometi. Sou ruim vilo... mas minto, eu o no sou! Sandeu, diz bem de ti prprio! Sandeu, no uses de lisonja! Minha conscincia tem milhares 
de lnguas diferentes e cada lngua me diz um conto diferente, e cada conto me condena como ruim vilo: perjrio, perjrio, no mais subido grau; assassnio, assassnio 
horrendo, no mais horrfico grau. Todos os pecados diferentes, todos cometidos em cada grau, se ajuntam diante o juiz todos bradando: "Culpado, culpado!" Em desespero 
cairei. No h criatura que me ame, e se eu morrer, ningum me lamentar... E porque o fariam, se eu prprio em mim prprio por mim prprio no encontro d? Cuido 
que as almas de todos os que assassinei vieram a minha tenda, e cada qual me ameaou que amanh a vingana tombaria sobre a cabea de Ricardo.
     (Entra Ratcliffe.)
     RATCLIFFE - Meu senhor?
     RICARDO III (Rei) - Pelo demo! Quem est a?
     RATCLIFFE - Ratcliffe, senhor, sou eu. O galo da alva na aldeia por duas vezes saudou a alvorada. Vossos amigos erguidos so e cingem suas armaduras.
     RICARDO III (Rei) -  Ratcliffe, sonhei um sonho horrendo! Que cuidas: provaro nossos amigos todos ser leais?
     RATCLIFFE - No duvido, meu senhor.
     RICARDO III (Rei) -  Ratcliffe, hei gr temor, hei gr temor!
     RATCLIFFE - No, meu bom senhor, no vos arreceeis de sombras.
     RICARDO III (Rei) - Por So Paulo Apstolo, esta noite sombras ho lanado mais terror na alma de Ricardo do que a substncia de dez mil soldados mui bem armados 
e conduzidos pelo inexperto Richmond. Ainda  longe o dia. Anda, vem comigo. Entre nossas tendas em sigilo escutarei, para que veja se algum intenta apartar-se 
de mim.
     (Saem Ricardo e Ratcliffe)
     (Entram os fidalgos na tenda de Richmond, que est sentado.)
     FIDALGOS - Bom dia, Richmond.
     RICHMOND - Peo clemncia, senhores e fidalgos em viglia, por aqui encontrardes lento madrao.
     PRIMEIRO FIDALGO - Como haveis dormido, senhor?
     RICHMOND - O mais doce sono e os sonhos mais esperanosos que alguma vez entraram em dormida mente, eu os tive, meus senhores, desde que vs haveis partido. 
Cuido que as almas daqueles corpos que Ricardo assassinou vieram a minha tenda e bradaram por vitria. Eu vos dou por certo que minha alma se deleita na lembrana 
de sonho to formoso.  mui avanada a manh, senhores?
     PRIMEIRO FIDALGO - Soam as quatro.
     RICHMOND -  tempo ento que nos armemos e que demos nossas ordens. (Sai da tenda) (A sua orao aos soldados) Mais do que hei j dito, amados homens de minha 
terra, a prontido e a necessidade do momento no permitem demorar-nos. Porm, lembrai-vos disto: Deus, e nossa justa causa, lutam a nosso lado; as preces de sagrados 
santos e de almas ofendidas, semelhantes a mui altos baluartes, so diante nossos rostos. Afora Ricardo, aqueles contra quem lutamos antes queriam ver-nos vencedores 
do que aquele que eles seguem. Pois quem  aquele que seguem? Em verdade, senhores, um sanguinoso tirano e um homicida; um que se ergueu com sangue, e em sangue 
se firmou; um que no olhou a meios para alcanar o que tem, e assassinou aqueles que foram meios para o ajudar. Uma pedra imunda e vil, tornada preciosa polo encaste 
do trono de Inglaterra, onde est com falsidade assente; um que sempre h sido inimigo de Deus. E assim, se pelejardes contra o inimigo de Deus, Deus, por justia, 
vos tomar por Seus soldados; se suardes para derrubar um tirano, dormireis em paz, sendo o tirano morto; se lutardes contra os inimigos de vossa terra, a riqueza 
de vossa terra vos pagar a renda de vossas dores; se lutardes pela seguridade de vossas mulheres, vossas mulheres recolhero em casa os vencedores; se libertardes 
vossos filhos da espada, os filhos de vossos filhos vos agasalharo na velhice. E assim, em nome de Deus e de todos estes direitos, erguei vossos estandartes, com 
coragem brandi vossas espadas! Para mim, a expiao de minha ousada empresa talvez seja jazer este corpo frio na face fria da terra. Mas se vencer, o ganho de minha 
empresa repartido ser por cada um de vs. Soai, tambores e trombetas, com coragem e alegria. Deus e So Jorge! Richmond e vitria!
     (Saem Richmond e os seguidores)
     (Entram R. Ricardo, Ratcliffe e soldados.)
     RICARDO III (Rei) - Que disse Northumberland, no que respeita a Richmond?
     RATCLIFFE - Que nunca foi em armas ensinado.
     RICARDO III (Rei) - Disse a verdade. E que disse Surrey?
     RATCLIFFE - Sorriu, e disse: "Melhor para ns."
     RICARDO III (Rei) - Razo tinha, e assim decerto . O relgio d horas. Dizei a hora. Dai-me um almanaque. Quem viu hoje o Sol?
     RATCLIFFE - Eu no, meu senhor.
     RICARDO III (Rei) - Ento ele desdenha brilhar, porque, conforme o livro, h uma hora j que ele devia ter aparecido a oriente. Dia negro ser este para algum. 
Ratcliffe!
     RATCLIFFE - Meu senhor?
     RICARDO III (Rei) - Hoje o Sol no ser visto! O cu se turva e chora sobre nosso exrcito. Gostaria eu que estas lgrimas como orvalho subissem do cho. Hoje 
no brilhar? Ora, que  isso para mim mais que para Richmond? Porque o mesmo cu que sobre mim se turva a ele olha com tristeza.
     (Entra Norfolk.)
     NORFOLK - Armai-vos, armai-vos, meu senhor, o inimigo arrogante avana para o campo
     RICARDO III (Rei) - Vamos, prestes, prestes! Ajaezai meu cavalo. (Ricardo arma-se) Chamai o senhor de Stanley. Mandai-o trazer suas hostes. Conduzirei de contino 
meus soldados  plancie, e ser ordenada assim minha batalha: a minha vanguarda toda se estender em comprimento e ser formada de cavalos e pees; nossos arqueiros 
permanecero no centro. D. Joo, Duque de Norfolk, D. Toms, Conde de Surrey, comandaro esses pees e cavalos. Avanando eles, seguiremos ns no corpo da batalha, 
cuja puissance em cada lado ser escudada por nossos melhores cavalos. Assim, e So Jorge ajudando! Que pensas, Norfolk?
     NORFOLK - Boas ordens, soberano guerreiro. (Mostra-lhe um papel). Encontrei isto na minha tenda esta manh.
     RICARDO III (Rei) (Lendo) - "Palafreneiro de Norfolk, no sejas to destemido, porque Ricardelho, teu amo, foi comprado e vendido." Cousa que o inimigo engendrou. 
Ide, senhores, cada homem a seu posto. Que nossos sonhos sandeus no amedrontem nossas almas. Conscincia  to-s uma palavra que os covardes usam, primeiro engendrada 
para causar temor aos fortes. Que nossos fortes braos sejam nossa conscincia, as espadas nossa lei. Marchemos! Juntemos-nos com valentia. Lancemo-nos na confuso... 
Se no para o cu, ento de mos dadas para o inferno. (A sua orao ao exrcito) Que direi eu, mais do que j sugeri? Lembrai-vos quem so vossos adversrios: uma 
horda de vagabundos, plebeus e fugitivos um bando de bretes e vis lacaios camponeses, que sua terra golfa em congesto e lana em desesperadas aventuras e segura 
destruio. A vs, que dormis em seguridade, eles trazem desassossego; a vs, que possuis terras e abenoados sois com esposas formosas, eles tornariam as primeiras 
e as outras desonrariam. E quem os comanda seno um homem vil que h muito vive na Bretanha a custos de nosso irmo? Um fraldiqueiro! Um homem que jamais em sua 
vida sentiu o frio da neve atravessar seus sapatos. Vamos escorraar estes vagabundos de novo para o outro lado do mar, repelir daqui estes arrogantes miserveis 
de Frana, estes pedintes famintos, lassos de suas vidas... Que, se no fora o sonho deste belo cometimento, por falta de meios, pobres ratos, se teriam enforcado. 
Se houvermos de ser vencidos, que sejam homens a vencer-nos! E no estes bastardos bretes, que nossos pais bateram em suas prprias terras, saquearam e espezinharam, 
e na histria foram feitos herdeiros da sua ignomnia. Gozaro de nossas terras? Dormiro com nossas mulheres? Violaro nossas filhas? (Soam tambores ao longe) Atentai, 
ouo seu tambor. Lutai, senhores de Inglaterra! Lutai, valorosos pees! Puxai, arqueiros, puxei vossas setas s cabeas! Esporeai forte vossos bravos cavalos e cavalgai 
em sangue! Assombrai o cu com vossas lanas quebradas! (Entra um mensageiro) Que diz o senhor de Stanley? Trar suas hostes?
     MENSAGEIRO - Meu senhor, ele nega-se a vir.
     RICARDO III (Rei) - Fora com a cabea de seu filho George!
     NORFOLK - Meu senhor, o inimigo passou o pntano! Depois da batalha mandai matar George Stanley.
     RICARDO III (Rei) - Mil coraes batem vivos em meu peito. Avanai, estandartes nossos! Lanai-vos sobre o inimigo! Que nosso velho brado de coragem, "por So 
Jorge", nos inspire com o alento de drages de fogo! A eles! A vitria se assenta em nossos elmos.
     (Saem)

      
Cena IV
      
(Alarmes. Escaramuas. Entram Norfolk e soldados; depois por outra porta Catesby.)
      
     CATESBY - Socorro! Meu senhor de Norfolk, socorro, socorro! O Rei faz mais prodgios que um homem, ousando opor-se a todos os perigos. Seu cavalo  morto, e 
a p combate, procurando Richmond na garganta da morte. Socorro, meu senhor, ou est perdido o dia!
     (Saem Norfolk e os soldados)
     (Alarmes. Entra o Rei Ricardo)
     RICARDO III (Rei) - Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!
     CATESBY - Fugi, meu senhor, eu vos levarei um cavalo.
     RICARDO III (Rei) - Escravo! Joguei aos dados minha vida, e suportarei o acaso do jogo. Cuido haver seis Richmonds no campo de batalha, cinco matei eu hoje 
em seu lugar. Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!
     (Saem)

      
Cena V
      
(Alarmes. Entram Rei Ricardo e Richmond; lutam. Ricardo  morto, soa ento  retirada. Sai Richmond. Levam o corpo de Ricardo. Trombetas. Entram Richmond, Stanley, 
Conde de Derby com a coroa, e outros nobres e soldados.)
      
     RICHMOND - Deus e vossas armas sejam louvados, amigos vitoriosos.  nosso o dia.  morto o sanguinoso co.
     STANLEY - Valente Richmond, teu dever cumpriste bem! (Apresentando a coroa) Vede, aqui, esta realeza h longo tempo usurpada, da fronte morta deste sanguinoso 
miservel a arranquei para com ela ornar tua testa. Usa-a, goza-a e enobrece-a.
     RICHMOND - Grande Deus dos cus, a todos eu digo amem! Mas dizei-me, ainda  vivo o jovem Stanley?
     STANLEY - , meu senhor, e em seguridade na cidade de Leicester, Para onde, se vos apraz, nos podemos agora partir.
     RICHMOND - Que homens ilustres morreram em ambos os lados?
     STANLEY - D. Joo, Duque de Norfolk, D. Walter, senhor de Fertrers, o senhor D. Roberto de Brakenbury e o senhor D. Guilherme de Brandon.
     RICHMOND - Sepultai seus corpos como convm a seus nascimentos. Proclamai um perdo aos soldados que fugiram e que submissos a ns tornarem, e ento, como solenemente 
houvemos jurado, uniremos a rosa branca e a vermelha. Sorride, cus, a esta ditosa aliana j que to longo tempo haveis ensombrecido a sua inimizade. Que traidor 
me escuta e no diz amem? A Inglaterra muito h que  sandia e se tem a si prpria maltratado: o irmo cegamente sangue de irmo derramou; o pai desrazoadamente 
seu prprio filho matou; o filho, mau grado seu, de seu pai foi carniceiro. Tudo isto dividiu York e Lancastre, dividiu, em medonha diviso. Oh, que estora Richmond 
e Isabel, veros sucessores de cada casa real, pela justa ordem de Deus se unam e que seus herdeiros,  Deus, se assim te apraz, enriqueam o tempo por vir com a 
paz de macio rosto, com ridente abundncia e belos, prsperos dias. Torna rombas as espadas dos traidores, gracioso Senhor, que quiserem fazer reviver estes dias 
sangrentos e fazer chorar a pobre Inglaterra em torrentes de sangue. No permitais que vivam para gozar a prosperidade desta terra os que com traio quiserem ferir 
a paz desta formosa terra. Agora as guerras internas esto cerradas; a paz vive de novo. Que ela aqui possa viver por longo tempo,  Deus, diz Amem!
     (Saem)

      
(c) copyleft 2001 - Ridendo Castigat Mores

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Janeiro 2001
      
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